Deus é definido como ser infinito. [1] Aquele que é; o Ser. [2] Daí que se explica
essencialmente a sua onibenevolência, onipresença, [3] onipotência, [4] onisciência, [5] os seus principais
atributos; porque Deus é infinito; tem toda a bondade (de maneira infinita) —,
toda a presença (de maneira infinita) —, todo o poder (de maneira infinita) —,
toda a sabedoria (de maneira infinita). Daí que se explica essencialmente Deus
como além de ser infinito, ser perfeito, pois como ser infinito, além de possuir
terminados numa plena simultaneidade todos os seus momentos, igualmente possui toda
a contingência e seus momentos que está abaixo d’Ele, terminados em si, em sua infinitude.
Não está acima do finito o infinito? Não é o tempo contingente? Sendo
contingente, segue-se que o tempo mude e, portanto, se mova. Quem muda é porque
se move, mesmo que a mudança não passe de uma, em especial, espacial; no caso
do tempo, por excelência: temporal. Não é o infinito o que é e o que, por
excelência, permanece sendo? Segue-se que por permanecer, o infinito não muda.
E quem muda é quem tem sob sua posse o que não muda? Como poderia o que muda
ter sob sua posse o que não muda, precisando necessariamente mudar para obter o
que não tem? Logo, não tem sob sua posse o que muda aquilo que não muda. Não é
então o que não muda quem tem a mudança sob sua posse? Não sendo preciso mudar
para obter o que não tem, segue-se que o imutável já tenha tudo o que precisa. Não
é então o infinito — imutável — quem tem o finito — mutável — sob sua posse? Ser
ser infinito[6]
é ter perfeitamente toda a posse plena e simultânea de todos os seus momentos,
passado, presente e porvir — por assim dizer[7] —, num todo único e
singular de si mesmo, terminado ou perfeito. Ora, não é o todo e singular de si
mesmo e terminado, também um momento? E o ato de tê-lo outro momento? Então Deus
além de ter a posse plena e simultânea de todos os seus momentos, tem a posse do
todo e singular de si mesmo pelo ato mesmo de ter plena posse e simultânea de todos
os seus momentos, o que é antes também um momento. Então Deus tem a plena posse
e simultânea de si mesmo; então Deus é o fundamento de si mesmo. Se Deus é o
fundamento de Si mesmo, segue-se que é o topo e esteja no topo, pois não há
nada além d’Ele que O fundamente, salvo Ele mesmo que é o topo e está no topo. Não
estão todas as coisas contingentes no tempo? E não tem a posse dessas coisas
contingentes o próprio tempo, ainda que de maneira finita e imperfeita? Não é o
tempo contingente e finito? Não está progredindo o que é contingente junto ao
tempo? Não é verdade que não cessa em progredir o tempo para o futuro? A todo
momento não está o tempo caminhando para o futuro? E quem caminha progride,
correto? Poderia o contingente progredir junto ao tempo e não sofrer mudanças?
Progredir junto ao tempo não é mudar? Poderia o contingente ficar mais jovem
envelhecendo, ao progredir junto ao tempo para o futuro? Então mudanças são
inerentes à condição contingente; então mudanças são inerentes à condição temporal.
Estando o contingente a mudar ao progredir junto ao tempo, quem progride não
caminha? E quem caminha não se move? Então estando o contingente a mudar ao
progredir junto ao tempo, segue-se que está se movendo junto a ele para mudar.
E não é o tempo quem move o contingente? Entretanto, para mover o contingente o
tempo precisa mover-se. E não é junto do tempo que o contingente se move? Então
é o tempo que ao mover-se muda, mudando ao mover-se o contingente, que o
acompanha, necessariamente, no tempo e na mudança. E é quem está imerso à
mudança que, precisando mudar para obter o que não tem, pode ter posse plena e
simultânea de todos os seus momentos? Ou é quem é o topo e, sendo o topo, está no
topo? Quem à perfeição está imerso — à condição de acabado[8] — que pode ter posse plena
e simultânea de todos os seus momentos? Imerso à mudança, poderia o tempo ser infinito
não tendo a plena posse e simultânea de todos os seus momentos? Poderia ainda o
tempo não tendo a plena posse e simultânea de todos seus momentos, tê-la num
todo único e singular de si mesmo, mesmo não possuindo este todo único e
singular de si mesmo, justamente por não ter realizado o ato mesmo de ter posse
plena e simultânea de todos os seus momentos, como, por exemplo, assim o
fizera, desde o início dos tempos, [9] o infinito? Ora, tão logo
o tempo obtém um momento, indo adiante dele, surge outro a que se obter sob sua
posse, e assim sucessivamente até que se esgote. [10] Mas, por este modo contingente,
ao progredir o tempo no futuro sem cessar, não busca igualmente realizar-se ao
possuir plena posse e simultânea de todos os seus momentos? Não se realizaria o
tempo posto obtivesse todos os seus momentos, pelos quais progredi sem cessar
para o futuro passando adiante deles? E não é aquele que busca quem procura
conseguir algo? E posto ainda busque, significa que ainda não tenha o que
procura, correto? Então segue-se que o tempo só possa ter todas as coisas
contingentes, ainda que de maneira potencial e inacabada — buscando
completá-las —, por um princípio de identidade comum a ele e a essas coisas,
isto é, a contingência ou mudança. [11] Então não pode ser o tempo
fundamento de si mesmo; logo, não é o finito fundamento de si mesmo. Já o
infinito, diferentemente, por cuja posse plena e simultânea de todos os seus momentos
e de si mesmo, tem a posse plena e simultânea de todas as coisas contingentes e
seus momentos, isto é, infinitamente, por um princípio de transcendência. [12] Então é Deus o fundamento
do tempo; logo, é Deus o fundamento do finito. Não é o passado aquilo que
existiu? Não é o futuro um possível passado? Então é o futuro a possível
existência, pois para que tenha existido é necessário que exista. Então o tempo
tendo todas as coisas contingentes de maneira imperfeita e inacabada, pelo
princípio de identidade comum chamado ‘contingência’, busca realizar-se ao
progredir contingentemente, rumo ao futuro, pela existência possível de seus
momentos, que, à medida em que vão sendo passados adiante pela mudança e
movimento, vão se incorporando, realizados, à sua história, maneira pela qual lhes
obtém aí então alguma posse, ainda que não lhe sejam inteiramente seus. É o
tempo fundamento de si mesmo? Não sendo fundamento de si, segue-se que haja
algo que venha antes e, por vir antes, o fundamente, correto? E o infinito não
é o que vem antes do finito? Não é o tempo finito? Então o infinito vem antes
do tempo. Ora, sendo o fundamento do tempo, o infinito, por um princípio de transcendência,
tem toda a posse plena e simultânea do contingente; tem o infinito o tempo.
Então Deus sendo infinito, e tendo a posse plena e simultânea de todos os
momentos que não têm começo nem fim, segue-se que tem a posse plena e
simultânea de todos os momentos que têm começo e fim. Então o infinito tendo a
plena posse e simultânea de si mesmo, tem plena posse e simultânea do tempo;
tem Deus plena posse e simultânea do finito. Tem Deus plena posse e simultânea
do tempo. Tem Deus plena posse e simultânea da história.
Se não tem a posse plena e
simultânea do finito, não é infinito. Se for finito, não é infinito. Se não for
infinito, não é Deus. Se não tem a posse plena e simultânea do finito, não é
Deus. Se for imperfeito, não é infinito. Se não for perfeito, não é Deus. Se o
infinito é infinito e tem tais e quais predicados, o infinito é tais e quais
predicados. Se o infinito é infinito e tais e quais predicados, Deus sendo
infinito é tais e quais predicados.
O ser infinito está ou não está no
infinito? Poderia o ser infinito tendo a perfeita posse simultânea de todos os seus
momentos, estar exclusivamente na contingência? Imerso no tempo? Como que agrilhoado?
E não é o tempo finito e finito o tempo? Agora, é o infinito finito? É o
infinito quem busca realizar-se mediante a progressiva mudança no tempo imerso
à contingência, indo adiante dos momentos ao mesmo tempo em que lhes escape
outros, pelos quais segue avançando, até que se esvaia em sua própria natureza passageira?
Ora, quem progride não avança? E quem avança não progride? Não sendo o infinito
finito, segue-se que não pode estar imerso no finito. Não sendo o infinito
finito, segue-se que não pode mover-se. O infinito não se movendo, segue-se que
é estável. Não é estabilidade o mesmo que não variar? E quem não varia, não
muda, correto? E quem não muda é imutável? Não sendo o infinito finito,
segue-se que é imutável. Sendo o infinito imutável, como poderia estar o ser
infinito imerso no tempo? Não estando imerso no tempo, o ser infinito não pode
ser necessariamente o próprio tempo. Por outro lado, não está então, por
excelência, o infinito à contingência como superintendente dela, de tal maneira
que a sustenha plenamente através da posse simultânea de todos os seus momentos?
E o superintendente de algo está acima ou abaixo daquilo que é supervisionado? É
o superintendente idêntico ao que é supervisionado por ele? Ora, tão logo fosse
o superintendente a coisa supervisionada, deixaria de ser superintendente para
ser supervisionado por outro superior a ele. O infinito sendo superintendente,
serve ou é servido? Sendo servido, pode o superintendente ser servo
necessariamente? Não podendo ser servo necessariamente, quem está mais próximo
a grilhões: o superintendente ou o supervisionado? Então não poderia o ser infinito
estar agrilhoado: imerso no tempo. Estando, portanto, no infinito, poderia o
ser infinito não ser o próprio infinito? Não é verdade que acima do infinito
não há nada além do mesmo e próprio infinito? Não é verdade que abaixo do
infinito só resta a contingência? Não é verdade que nada é o fundamento do
infinito além dele mesmo, como o seu próprio fundamento? Se nada é o fundamento
do infinito salvo ele mesmo, então o infinito é necessariamente, isto é, sem a
necessidade de que algo venha antes ou depois dele para que o sustenha em seu
ser. E não é verdade que o ser é, e o não-ser não é? Não é verdade que o ser
sendo, segue-se que exista; e o não-ser não sendo, segue-se que não exista? Se
o infinito é necessariamente, segue-se que exista necessariamente, porque o ser
sendo segue-se que exista. Ora, necessariamente é obrigatoriamente. Se o
infinito é necessariamente, segue-se que precisa ser. Se o infinito precisa
ser, segue-se que precisa existir. Se o infinito precisa existir, segue-se que
existe obrigatoriamente. Logo, o infinito existe obrigatoriamente. Não é o que
existe obrigatoriamente, obrigatório? Não é o que existe necessariamente, necessário?
Então não é aquilo que é obrigatório, necessário? E necessário, obrigatório? Logo,
o infinito sendo obrigatório, segue-se que é necessário; sendo necessário, obrigatório.
Agora, pode dois ou mais infinitos coexistirem? Primeiro, ou um dos dois seria
o infinito, ou nenhum dos dois, porque o infinito, por definição, precisa conter
tudo, por um princípio de identidade e transcendência: contendo tudo o que ele mesmo
já é, fá-lo porque é idêntico a si mesmo; e tudo o mais sem confundir o seu ser
com o que é contido, porque é transcendente a todo resto que não idêntico a si.
Logo, um dos dois supostos infinitos contém transcendentemente o outro, já esse
outro, não tendo o seu fundamento em si mesmo, não seria infinito; se esse
outro fosse contido como ser idêntico ao que o contém, então seria o ser
idêntico que o contém e não outro, havendo apenas um e não dois infinitos. Segundo;
ou os dois supostos infinitos seriam contidos transcendentemente por um terceiro,
logo eles dois não seriam infinitos, todavia esse terceiro; se eles dois fossem
idênticos ao terceiro que lhes contém, então seriam o terceiro que lhes contém
e não eles dois, havendo apenas um e não três. Não podendo dois infinitos
coexistirem, segue-se que três ou mais também não. Não podendo haver dois ou
mais infinitos, então só pode haver um infinito metafísico: o Infinito. Não
havendo outro infinito que não o infinito metafísico; o ser infinito não
podendo nem ser outro infinito metafísico e nem temporal; logo, o ser infinito
é o próprio Infinito ou o Infinito é o próprio ser infinito. Logo, o que está
no Infinito é o Infinito. Se Deus é ser infinito, segue-se que Ele está no Infinito
e é o Infinito. Se Deus é perfeito e infinito, logo o Infinito é perfeito. O Infinito
onde Deus está é perfeito. E Deus é o infinito metafísico.
Se Deus é infinito e tem tais e
quais predicados, Deus é tais e quais predicados. Se Deus é infinito e tais e
quais predicados, o Infinito é tais e quais predicados também.
Ser é existir necessariamente ou
contingentemente. Tudo que é, é necessariamente ou contingentemente. Se não
fosse, não existiria, porque o não-ser não é; logo, o não-ser não existe nem
necessariamente nem contingentemente. O Infinito é necessariamente. O Infinito,
sendo perfeito, não pode não ser necessariamente. Se fosse contingentemente,
não seria necessariamente, porque seria contingentemente contingente[13] ou contingente
necessariamente; [14]
dependendo da contingência, não seria perfeito, tão logo não seria infinito. Não
é a contingência imperfeita? Não é o que depende necessariamente da
contingência, contingente? E não é contingente aquilo que está imerso no tempo,
movendo-se através dele? E não é o que depende contingentemente da necessidade,
contingência? E não é a contingência o próprio tempo, que, ao mover-se, move
tudo o que é contingente dentro de si? Tanto a contingência quanto o
contingente movem-se, então não são imóveis. Se não são imóveis, não são
imutáveis. Se não são imutáveis, não são perfeitos. Não sendo perfeitos, não
são infinitos. E pode o superintendente dos superintendentes ser supervisionado
por outro superintendente? Se fosse o Infinito um tipo infinito que não o infinito
metafísico, não seria infinito, porque não poderia simultaneamente, única e
exclusivamente, depender de si mesmo e de outro infinito acima; dependendo de
outro infinito que não dele mesmo, tão logo não seria infinito e tampouco o
infinito metafísico: o Infinito. Agora, não é aquilo que é necessariamente não
podendo ser contingente, necessário? E não é aquilo que é necessário não
podendo ser contingentemente, necessariamente? E ser não é existir
necessariamente ou contingentemente? Então o infinito é ser necessário e existe
necessariamente; necessário necessariamente. [15]
O infinito sendo necessário e
existindo necessariamente, segue-se que é obrigatório e existe obrigatoriamente. [16] Sendo Deus perfeito e
infinito, segue-se que é ser necessário e, portanto, existe necessariamente.
Sendo Deus perfeito e infinito, segue-se que é ser obrigatório e, portanto,
existe obrigatoriamente.
Se Deus existe necessariamente,
então Deus existe obrigatoriamente; se Deus existe obrigatoriamente, Deus
existe necessariamente. Deus existe obrigatoriamente se, e se somente se,
existe necessariamente.
Deus existe necessariamente. Deus existe obrigatoriamente.
REFERÊNCIAS
ANSELMO,
Santo. Proslogion
seu Alloquium de Dei existentia. Tradução de José Rosa. Covilhã: LusoSofia,
2008. Disponível em: https://lusosofia.ubi.pt/textos/anselmo_cantuaria_proslogion.pdf. Acesso em: 13 out. 2025.
AGOSTINHO,
Santo. Confissões.
Tradução de Lorenzo Mammì. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
AGOSTINHO,
Santo. Sobre o
Livre-Arbítrio. Tradução de Everton Toresim. Campinas, São Paulo: Ecclesiae,
2019. Formato digital.
BÍBLIA. Português. Bíblia do Homem de
Fé. Tradução de Pe. Raimundo Vidigal. Aparecida, São Paulo: Editora
Santuário, 2022.
BOÉCIO. Consolação da Filosofia.
Tradução de Willian Li. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012. Disponível em: https://cabana-on.com/Ler/wp-content/uploads/2017/09/A-Consolacao-da-Filosofia-Boecio.pdf. Acesso em: 11 out. 2025.
CARVALHO, Olavo de. Coleção História Essencial da Filosofia: Filosofia Cristã. São Paulo: É Realizações, 2006. Formato digital.
APÊNDICE A — A ONIBENEVOLÊNCIA DE DEUS
A onibenevolência de Deus é o mais
importante atributo de Deus. Por ser bom infinitamente, comporta infinitamente
tudo que é bom, e aborrece sempre o mal. Sendo Deus infinitamente bom, é parte
da Sua natureza onibenevolente, primeiro, não ser autor do mal, não o propagar
e não o comportar. Sendo bom infinitamente, Deus não é corrompido e nem se
corrompe; “incorruptível e inviolável”, diz Sto. Agostinho (2022, p. 170).
Sendo Deus o bem infinito, segue-se que criou o bem finito. Não é Deus criador
de todas as coisas? Poderia o bem finito ter sido criado pelo mal, isto é, pelo
mal finito? Ora, tão logo não seria bom. Não é uma evidência de que para que
seja o bem precisa ser bom? Poderia então o bem finito ter sido criado pelo mal
infinito? Ora, o mal infinito segue-se que não exista mesmo, porque o infinito
é, sendo Deus infinitamente bom, infinitamente bom. Não é Deus o bem infinito?
Pode algo maior que o infinito existir? Pode algo maior que Deus existir? E não
é Deus infinito? E não é uma evidência de que para que seja o bem precisa ser
bom? Logo, não poderia então o bem finito ter sido criado pelo mal infinito.
Sendo Deus infinito, tão logo é infinitamente bom e o bem infinito, e não o mal
infinito. Segue-se que o mal infinito é impossível. Não é necessário àquilo que
agora existe, antanho possibilidade de sua existência? Logo, o mal infinito
para cuja possibilidade existencial inexiste, não existe. Poderia então o bem
finito ter sido criado pelo acaso? Diferente da contingência, o acaso não
possui finalidade. Diferente da contingência, o acaso não possui necessidade.
Ora, o que vem através do acaso não tem propósito; o que é criado pelo acaso
não tem propósito. Além de haver uma finalidade necessária com que se
proposita, não é o propósito um ato de vontade? Não é um ato de vontade um ato
de aquiescência e, portanto, de inteligência? É possível ter um ato de
inteligência, aquiescência e, portanto, de vontade sem querer? Logo, é se
querendo que se tem por um ato de vontade, um ato de aquiescência e, portanto,
de inteligência. Não querendo nada com nada, o ocaso não pode criar nem o mal
nem o bem, pois posto criasse o mal, seria mau, e posto criasse o bem, seria
bom; não querendo nada com nada, não pode ser nem mau nem bom. O acaso
destituído de inteligência, aquiescência e, portanto, de vontade, é destituído
de propósito; o acaso destituído de propósito, é amoral, incapaz nem de maldade
nem de bondade. Como então poderia o acaso, posto criasse o mal, ser mau, e
posto criasse o bem, ser bom, sendo amoral? Segue-se que não só o acaso não
criou mal algum, mas também não criou bem algum. Segue-se que, por excelência,
o finito, e portanto tudo o que é finito, é bom, porque é quem o criou, o
infinito, onibenevolente, isto é, infinitamente bom. Segue-se que o bem só
possa ter sido criado pelo bem. Não é Deus o bem infinito? Então Deus criou o
bem finito. Sendo o bem infinito e criador de tudo o que é bom, isto é,
obviamente o bem finito, segue-se que Deus não pode ter criado o mal, isto é, o
mal finito. Mas não é tudo o que é, ou finito ou infinito? Tudo o que é, ou é
finito ou infinito. Se tudo o que é, é ou finito ou infinito, sendo infinito, é
Deus; sendo finito, provém de Deus. Ora, infinito é Deus; o finito criação de
Deus. E o mal não podendo ser infinito, segue-se que é finito, não é? Então
como é isso: a despeito de ser infinitamente bom, Deus criou o mal finito?
Sendo o bem infinito, Deus não poderia. Se Deus é bom infinitamente e houvesse
mesmo assim criado o mal finito, segue-se que, pelo mesmo raciocínio de ser bom
infinitamente ao criar o bem finito, seria na verdade mal infinitamente. Mas
não é o mal infinito cuja possibilidade de existência inexiste, porquanto
inexistente? Logo, Deus não poderia ter criado o mal finito, do contrário seria
Ele mal infinitamente — o mal infinito —, o que não é o caso dado a
impossibilidade existencial do mal infinito. Ainda assim, sendo Deus
infinitamente ou bom ou mau, por que criaria em paralelo, logo em seguida, o
Seu contrário, ainda que finitos, para macular o que provém de Si segundo aquela
Sua natureza ou boa ou má? Ora, não é algo da possibilidade nem da
onibenevolência, nem da maldade infinita. Deus sendo o bem infinito, não
poderia criar o mal finito; sendo Deus o mal infinito, não poderia criar o bem
finito. Deus não podendo ser infinitamente mal, segue-se que é infinitamente
bom. Deus sendo infinitamente bom, segue-se que não criou mal algum. Sabendo
que Deus não poderia criar o mal finito, quem o fez? Não é notório a
experiência da maldade no universo? Não é o universo finito, contingente e,
portanto, dado à mudança? E não é Deus criador de todas as coisas finitas? Não
é o mal algo seja lá o que seja, finito? Não é Deus criador do universo? Então,
como se dá isto a despeito de ser absurdo a criação do mal finito por Deus
onibenevolente? Ora, não pode o bem finito, dado por sua natureza finita à
contingência ou mudança, deixar de ser bom, tornando-se mal? Tornando-se mal,
não deixa o bem finito, dado à contingência ou mudança, de ser bom? Ora,
tornar-se não é passar a ser o que não era originalmente, retornar ou ser algo
completamente diferente? Contudo, não é o mal contrário ao bem? Se tudo o que é
finito é a priori também bom por sua criação onibenevolente, não está o
bem finito privado do que originalmente era — bom — quando está corrompido pelo
seu contrário, o mal? Então não é verdade que pode o mal corromper o bem
finito? E não é verdade que o bem finito pode ser corrompido pelo mal? E o mal,
não podendo corromper o bem infinito, segue-se que é finito tal como o bem
finito que é capaz de corromper, correto? Se o mal não é infinito, mas finito,
segue-se que sua corrupção seja passível de reversão, assim como o bem finito,
dado por sua natureza finita à contingência ou mudança, pode deixar de ser bom,
tornando-se mal. Todavia, se o mal é finito, segue-se que ele nunca possa
corromper infinitamente. Poderia o finito engendrar infinitude? Ou é o infinito
quem pode engendrar finitude? E não engendraria infinitude posto corrompesse
infinitamente o bem finito, o mal finito? Não é o finito dado à contingência e,
portanto, à mudança? Não é o infinito aquilo que não muda? E o que “não sofre
mudança é melhor do que o que pode mudar” (2022, p. 169), não é? Então se o mal
é finito segue-se que ele nunca torna o bem finito em mal finito
definitivamente, pois torná-lo-ia num mal infinito e com isto engendrar
infinitude, o que é impossível. Tanto é impossível a existência do mal
infinito, quanto o mal finito engendrar infinitude. Então se o mal finito só
pode parcialmente corromper o bem finito, segue-se que lhe prive de um bem, de
modo que não altere a sua natureza ou bondade. Então se o mal é finito e não
consegue corromper completamente o bem finito, segue-se que o bem finito não
chega a se tornar, em nenhum momento, o mal finito. Se tudo o que é, é bom a
priori; se tudo o que é bom, é tudo o que é; se tudo o que é, é porque foi
criado por Deus, o bem infinito; o mal finito não podendo tornar-se sem
corromper em definitivo o bem finito, segue-se que não exista. Mas não é
notório a experienciação da maldade no universo? Com efeito, não existe como
ser ou substância. Não é a natureza do bem finito a sua substância? Não é sua
substância aquilo que lhe faz ser quem é? E aquilo que faz algo ser o que é,
não é o seu ser? Então tudo que é ou finito ou infinito, é enquanto ser ou
substância. O mal não podendo alterar a natureza do bem finito, seu ser ou
substância, não chega a ser o mal finito. Se tudo o que é ou finito ou
infinito, é enquanto ser ou substância, é o bem finito enquanto ser ou
substância. Se o mal finito não chega a alterar a natureza do bem finito, seu
ser ou substância, em suas investidas corruptoras, não passa a existir enquanto
ser ou substância, porque só pode ser o mal finito se com cuja única via para
consegui-lo seja alterando a natureza do bem finito. É verdade que Deus criou
todas as coisas, todas as coisas enquanto seres ou substâncias. O mal não sendo
enquanto ser ou substância, não foi criado por Deus. Não é tudo o que existe
enquanto ser ou substância? O mal não sendo enquanto ser ou substância,
segue-se que não existe enquanto ser ou substância. Ora, se tudo o que é, é
enquanto ser ou substância, então tudo o que é, é ser ou substância. Se Deus é,
Deus é enquanto ser ou substância; Deus é ser ou substância. Mas não é Deus,
sendo-lhes o Criador, maior do que todos os seres ou substâncias? Não é Deus
acima do qual nada mais pode haver? E se há, é porque é alguma coisa; e se é, é
porque existe. Então não existe mais nada além de Deus, salvo Ele mesmo, como o
topo de Si acima do qual não há mais nenhum outro. Se Deus é ser ou substância,
segue-se que é o ser dos seres ou a substância das substâncias, isto é, o Ser.
Se Deus é o Ser e Criador de tudo o que é ser ou substância abaixo d’Ele,
segue-se que tudo o que é não é completamente ser ou substância. Abaixo de
Deus, tudo o que é, é ser ou substância porque provém d’Ele; contudo, ser ou
substância ainda que não ser ou substância, porque, abaixo d’Ele, tudo o que é
não é exatamente o mesmo que o que Deus é. Com efeito, só “é verdadeiro ser o que
permanece imutável” (2022, p. 186). Se tudo o que é, é porque ou provém de Deus
ou é Deus, o mal que nem provém de Deus, nem é Deus, não é. O mal não sendo,
segue-se que lhe sobre ser não sendo, isto é, o não-ser.
APÊNDICE B — A ONIBENEVOLÊNCIA DE DEUS É O MAIS IMPORTANTE
ATRIBUTO DE DEUS
O
mal não sendo, segue-se que lhe sobre exercer ainda um dano, a ausência ou
privação de um bem. Se todas as coisas que são, são provenientes de Deus, e não
sendo Deus, são boas ainda que finitamente e imperfeitas pela contingência ou
mudança lhes inerente — de maneira que “todas elas singularmente são boas, mas
todas juntas são muito boas” (2022, p. 187) —, segue-se que, entretanto, “entre
suas partes há algumas que, por não se harmonizarem com outras, são
consideradas más” (2022, p. 187).
O
mal não sendo, como poderia exercer um dano a um ser que, sendo, existe? Não
que o mal não exista, apenas, não sendo, não existe como ser ou substância,
que, por excelência, é criado bom por Deus. O mal não sendo, isto é, não-ser,
deve ter um autor mesmo assim, já que um dano não poderia ser feito sem ninguém
que efetivamente é e, portanto, existe enquanto ser ou substância. Todavia, não
é o autor do mal este ou aquele tão somente “pela simples razão de que não há
um único e determinado autor, senão cada pessoa, ao não agir retamente,
torna-se verdadeiro e próprio autor de suas más ações” (2019, Livro I), diz
Sto. Agostinho. Não se podendo dizer, categoricamente, nem que de a angustia do
remorso sofrerá a areia de construção ao haver logrado para que servisse como
escravo em seu lugar, na preparação e fabricação de concreto, o pó de pedra,
nem que um leão passe noites em claro, culpando-se de ter copulado com a leoa
de seu irmão; o mal exerce um dano, ao privar de um bem, a alguns seres ou
substâncias, por meio da má escolha desses alguns seres ou substâncias. Logo, parte-lhes
de dentro, e não de fora. Ora, quem escolhe é porque tem liberdade para
fazê-lo, não é? E quem escolhe com liberdade, não escolhe com vontade também?
Não é preciso querer para com, liberdade, escolher com vontade? E não é com
vontade que, querendo, se tem um ato de aquiescência e, portanto, de
inteligência? E não é por um ato de aquiescência, inteligência e, portanto, de
vontade, com que, querendo, se tem uma escolha? E quem será que de todos os
seres ou substâncias criadas boas por Deus são livres para, querendo,
escolherem por meio de uma aquiescência, com inteligência e, portanto, com
vontade? Não é o ser humano ao menos um dos que, livres e querendo, por meio de
uma aquiescência, com inteligência e, portanto, com vontade, comete más
escolhas? E não é a vontade do homem, livre? Não é com liberdade que o homem,
querendo, escolhe, aquiescendo com inteligência e vontade? Então o homem
escolhe com livre-vontade. Não são eles ao homem: liberdade de escolha,
vontade, aquiescência e inteligência —, bens? E não são os bens aqueles que por
cuja posse ou não podemos diferenciar certas coisas de outras? Não é por meio
dos bens como liberdade de escolha, vontade, aquiescência e inteligência que
podemos, sem sombra de dúvidas, antepor qualitativamente os homens aos outros
animais, também seres ou substâncias? [17] Não é querer o mesmo que
propositar? Não é aquele quem quer algo, quem também, por querê-lo,
inevitavelmente proposita por ele? Ou o homem prefere querer com vontade e sem
motivo? Não é o motivo o mesmo que propósito? Não é o propósito ou a capacidade
de propositar outro bem do homem? Não é propósito o mesmo que finalidade? Mas
se são eles todos bens do homem, havemos de concordar que são bons, correto? E
se são bons e bens assumamos que sejam provenientes de Deus também, o bem
infinito e, portanto, sumo bem.[18] Ora, fazer más escolhas
não é cometê-las? Fazer más escolhas é antes escolhê-las, não é? E não é fazer
más escolhas antes uma má ação? Antes cometê-las sob as trevas da ignorância
onde o propósito é incerto, do que, livres e querendo, com inteligência e,
portanto, com vontade, por meio de um ato de aquiescência, fazê-las, onde o
propósito é conhecidamente; não é notório a diferença?[19] E quem aquiesce,
consente, correto? E quem, querendo, consente, com vontade e inteligência, não
é livre para fazê-lo? E não é a má escolha fruto da má vontade? E não é a
vontade antes um movimento interno necessário à livre-escolha por uma má ação?
Não é esta vontade ao enveredar pela livre escolha da má ação, má? Posto
enveredasse pela retidão não seria má, mas boa, correto? E o seria diferente
com o propósito? Não é o propósito ou motivo a vir antes da vontade? Não é o
propósito ou motivo a vir antes da escolha propriamente dita? O homem,
querendo, ao cometer uma má escolha, consente livremente por meio de um ato de
aquiescência numa má ação, com inteligência e vontade, e faz um mal, motivado
por um propósito que é o motivo de seu ato; o homem utente de sua inteligência,
aquiescendo por um mau proposito e com igual vontade, subverte a seu bel-prazer
a boa disposição dos bens lhe conferidos por Deus ao escolher livremente uma má
ação, tendo em vista que, disposto bom, deveria ter escolhido a retidão. O
homem no curso dessa sua maldade, sofre um dano e acaba privando-se de um bem, o
maior deles: estar em conformidade com a ordem divina, conferida a ele e a seus
bens. Caindo em desordem ao se lhe privar a si mesmo do maior dos bens, não é ao
homem afastar-se da ordem divina de Deus o mesmo que afastar-se do próprio Deus?
Caindo em desordem ao se lhe privar a si mesmo do maior dos bens, não é ao
homem afastar-se de Deus antes uma má escolha? E posto chegue a se afastar, uma
má ação? Não dispôs Deus bons os seus bens e o próprio homem? Não é a má ação
ou escolha fruto da má vontade? Não é preciso livre-vontade para escolher? Então
homem ao afastar-se de Deus, escolhe livremente a má vontade. E não é subverter
a seu bel-prazer o mesmo que subverter à sua vontade? Então, o homem, utente de
sua inteligência, aquiescendo com vontade e propósito, subverte livremente por
meio de uma má escolha a boa disposição dos bens lhe conferidos por Deus, à sua
vontade enveredada pela má ação, porque “quando razão, mente ou espírito
governam os movimentos irracionais da alma, então, e somente assim, é quando se
pode dizer que domina no homem o que deve dominar” (2019, Livro I, VIII. 18),
do que quando com efeito, pervertendo-se, se deixa dominar pelo que está
abaixo. Não é a razão o maior bem do homem? Não vem da razão a inteligência?
Então segue-se que é necessário a razão para a sua inteligência. Ora, nada
disso ia acontecer ao homem se ele não fosse livre, correto? Quem escolhe com
vontade, fá-lo com liberdade. E não tem o homem a livre-escolha como um de seus
bens? Não é a livre-escolha o mesmo que a livre-vontade? E livre-vontade qual
livre-arbítrio? Para que fosse livre e possuidor da livre-vontade, era
necessário que antes se tivesse outro bem, o da razão, não é? Não possuindo
razão para com vontade e inteligência, por meio de um ato de aquiescência ao
passo que em vista de um propósito, como poderia escolher livremente? Se é ao
homem a razão um bem necessário para o bem de sua inteligência, não é então ao
homem a sua razão um bem necessário para os seus demais bens? E não é com razão
que, querendo e com propósito, o homem livremente consente ou aquiesce, com
vontade e inteligência, ou na vontade de Deus, ou na sua própria subvertida ao
seu bel-prazer concupiscente, isto é, aos apetites desordenados de sua alma? Não
são os apetites de sua alma o mesmo que suas paixões ou inclinações? Não são
mais imediatamente os apetites, paixões ou inclinações da alma, prazerosos? Não
é a finalidade mais imediata dos apetites, paixões ou inclinações da alma, o
prazer?[20] Embora não sejam
exclusivas do homem, não são essas coisas também outros bens do homem? E se são
bens, assumamos que por serem provenientes de Deus, são bons, correto? Se são
bens provenientes de Deus e bens do homem, assumamos que foram dados ao homem
por Deus. Logo, o bem do prazer é bom. Mas não é a concupiscência o anelo desordenado
do bem do prazer à carne, ou àquilo que os homens “não podem possuir sem o
perigo de perdê-las” (2019, Livro I, IV. 10)? [21] E não é o anelo
desordenado do bem do prazer à carne, consciente e deliberado, propositado e
com vontade? Então o homem, convicto e querendo, com inteligência e vontade,
quando escolhe livremente a concupiscência como seu propósito à vontade de Deus,
a razão suprema que lhe dispôs e a todos os seus bens —, comete um mal, e
afasta-se d’Ele; afastando-se de Deus, o homem afasta-se da ordem divina com que
Ele lhe dispôs e a seus bens, caindo em desordem. Ora, é Deus infinitamente bom
quem dita o que é bondade e maldade, ditando antes o que é bom; tem Deus, por
definição, o conhecimento divino, amplo e infinito do bem, isto é, Ele mesmo, de
maneira que o que estiver fora é automaticamente mal. Se tudo o que é bom é bom
porque primeiro Deus é quem é infinitamente bom: o que está afastado de Deus é
mau, o que está segundo Deus é bom. Posto dissesse Deus ao homem que faça algo,
seria bom; posto dissesse ao homem que deixe de fazer algo, seria bom; posto
aprovasse aquilo, seria bom; posto reprovasse isto, seria bom. Não é Deus
bondade infinita? E não é afastar-se de Sua ordem boa com que dispôs todas as
coisas e as próprias coisas, afastar-se d’Ele? Afastar-se de Deus não é mau? Não
é o bem infinito sempre contrário ao que é mau? Não está o bem infinito sempre
afastado da maldade? O homem ao escolher livremente preterir a ordem boa com
que Deus dispôs a si e a todos os seus bens, pelo bel-prazer de dispô-los ele
mesmo através da sua concupiscência, comete uma maldade; escolhendo livremente
perverter ou subverter a sua vontade, afasta-se do bem infinito e de Sua
vontade, sofrendo um dano. E não é afastar-se do bem infinito, afastar-se do
Ser? Não é o Ser por quem o homem é ser ou substância? O mal não sendo, não é o
não-ser? O homem ao se afastar de Deus, aproxima-se do não-ser; o homem ao
aproximar-se do não-ser, aproxima-se de não ser. O homem só é, porque Deus é; o
homem só é bom, porque Deus é infinitamente. Não que o homem deixasse de ser
substância ou ser proveniente de Deus — o que é e sempre será —, mas se ao
largo de sua ordem com que Deus lhe dispôs e a seus bens junto de todas as
outras coisas boas, caminhar, avançará para não ser um ser ou substância
conhecida de Deus, isto é, bom segundo a Sua disposição ou Sua vontade, porque,
se e se somente se o homem é bom em função de Deus — e não O sendo, bom ainda
que finitamente —, algum dia Ele lhe dirá: “Não vos conheço! Afastai-vos de mim
vós que praticais a iniquidade” (2022, Mateus 7:23). Não é com inteligência e
vontade que, livre, convicto e querendo, se tem um ato de aquiescência? Então é
com razão e, portanto, inteligência, e vontade, que, livre, convicto e
querendo, se tem um ato de aquiescência. E se a razão é um bem, não é boa? E se
a razão é boa, não provém de Deus? O mal não sendo ser ou substância, tem
todavia possibilitada a sua existência dentro e na perversão consciente da
própria vontade do homem, que ao decidir deliberadamente curvar o seu bem mais
distinto, com vontade e inteligência, aos pés da irracionalidade, comete uma
maldade e se encontra deslocado, dispondo os demais bens como assim lhe convier
e à sua mais nova má vontade, cuja escolha, para tanto, fora afastar-se de
aquela Vontade. Não é irracionalidade afastar-se de Deus? E não é a mais pura
falta de racionalidade afastar-se livremente de Deus, o bem infinito, imóvel e
imutável, por algo que, tratando-se de algo finito, móvel e mutável, não se
pode assegurar de que não o irá perder?
Deus
da permissão ao homem que com o bem da sua livre-escolha dada a ele, use-a
livremente para perverter o bem de sua vontade, apartando-a da vontade suprema
de Deus —, e, com a inteligência do bem de sua razão, aquiescer pelo que Deus
terminantemente condena, ao determinar, sendo Ele a bondade infinita, o que vem
a ser o bem, e automaticamente por contraste o que vem a ser o mal: um afastamento
deliberado do bem de sua boa disposição segundo Sua vontade. Então Deus permite
o bem da sua livre-vontade com que o homem pode admitir em desejos reprováveis
ou concupiscência, e tomar má decisões, portanto más escolhas, portanto más
ações. Não é a livre-vontade o mesmo que livre-arbítrio? Então Deus permite o
bem do seu livre-arbítrio com que o homem pode admitir em desejos reprováveis
ou concupiscência, e tomar má decisões, portanto más escolhas, portanto más
ações. Não sendo o mal um ser ou substância, mas, com efeito, uma possibilidade
do livre-arbítrio podendo ou não vir a existir, de alguns seres ou substâncias,
dotados de bens como: razão, livre-arbítrio, aquiescência e inteligência —, o
mal se traduz pelo ato de estar livremente fora da ordem divina e, portanto, na
privação desta mesma ordem, o maior dos bens, ocasionando num dano à dignidade
daquele ser quem a escolhera deliberadamente; não obstante, o homem tendo a
possibilidade de retornar à disposição de seu ser, portanto à dignidade de seu
ser, dado que esteja antes na contingência e, portanto, imerso à mudança do
tempo, pode ser recolocado em ordem, novamente, devido ao bem de sua vontade do
livre-arbítrio, com a qual pudera livremente escolher.
Não
está o homem quando privado de sua saúde, enfermo? Para se encontrar enfermo,
não fora ao homem necessário o recebimento de algum dano? Não é a condição
sadia a regularidade de todo e qualquer ser vivente, incluindo-se aqui
sobretudo o homem? E não é junto aos médicos o lugar dos doentes? Não é o
médico ao mesmo tempo que contrário, ser necessário ao tratamento das doenças?
Contudo, é o médico contrário aos seus pacientes? É-lhes o médico também uma
doença? Não é, melhor dizendo, senão única e exclusivamente contrário à
enfermidade que carregam? Não podendo ser doente, do contrário não seria médico
para os seus doentes, mas doente para os seus médicos —, também não é doença
para os seus doentes. Destruiria seus pacientes o médico na esperança de se
livrar de suas doenças, preterindo a chance de curá-las pela certeza de
extirpá-las? Ou admitir-lhes-ia as doenças com esperança de que se possam
eventualmente ser curadas? Ora, poderia o médico negar ajuda a moribundos por
uma doença mortal que a cada dez pacientes, nove vêm terminantemente a óbito?
Sentenciaria o médico um décimo de seus pacientes cuja chance remota, mas ainda
lá, à morte com base na taxa de mortalidade da doença? Sentenciaria sabendo que
se os puder salvar, salvá-los-á para sempre, de maneira que ficassem livres das
doenças pelos séculos dos séculos, isto é, para sempre? Se assim o fizesse,
Deus não seria nem onibenevolente nem onisciente, pois impediria algo bom de
acontecer, sabendo que acontecerá, tornando-se mal; não seria onipotente, pois
tornando-se mal, é vencido; não seria onipresente, pois se vencido pela maldade
que se dá no tempo através de alguns seres ou substâncias criadas e dispostas
boas por Ele — na contingência ou mudança —, seria igualmente vencido pelo
finito, deixando de ser infinito. Deus tem de permitir o mal, do contrário não
é onibenevolente; do contrário, não é onisciente, onipotente nem onipresente.
Deus tem de permitir o mal, do contrário não é Deus. Não sendo o mal ser algum,
mas a despeito de estar fora de ordem o que é bom, ainda que limitado pela
estrutura finita do tempo; e sendo Deus o bem infinito; segue-se que, por Sua onisciência,
Deus permite a possibilidade ou não da maldade existir, porque além de saber inteiramente
da possibilidade do que é mau retornar à bondade, isto é, a Sua vontade, sabe inteiramente
que o que é bom e de Si proveniente, ainda que esteja tolhido de um bem, o
fará, efetivamente, muitas vezes, por estar, primeiro, estruturalmente no tempo
e imerso a ele, segundo, dotado de livre-arbítrio para escolher. E quem permite
algo não é porque tem poder sobre aquele algo, a ponto de poder permiti-lo ou
impedi-lo? O finito tem poder sobre o infinito? Ou é o infinito quem tem poder
sobre o finito? E onde se dá efetivamente a maldade: no finito ou no infinito?
Então Deus sendo infinito e igualmente bom, tem poder sobre esta falta de ordem
cujo acontecimento se dá no tempo, e que portanto é finita e passageira; segue-se
que, por Sua onipotência, Deus permite o mal e em último o sustém no tempo
através da sua infinitude transcendente, por tempo limitado, sem se contaminar
ou ser vencido. Sendo o bem infinito, Deus aborrece o mal infinitamente; sendo
Deus onibenevolente, não pode permitir que o mal aconteça para sempre. Sendo
Deus onibenevolente, onisciente, onipotente e onipresente, e sendo a maldade essa
falta de ordem finita e reversível, não lhe permitiria a possibilidade ou não de
existência se não pudesse lhe extrair uma certeza imóvel, imutável e infinita,
que estará segundo Ele para sempre.
[1] “Alguma coisa maior que a qual
nada pode ser pensado”, Sto. Anselmo (2008, p. 12). “Aquilo além do qual nada
pode ser concebido”, Olavo de Carvalho (2006, p. 39).
[2] “Deus disse a Moisés: ‘Eu sou
Aquele que sou’. E acrescentou: “Assim dirás aos israelitas: ‘Eu Sou’ mandou-me
a vós”, (2022, Êxodo 3:14).
[3] “Para onde irei, longe de vosso
espírito? Para onde fugirei de vossa face? Se subo ao céu, lá estais; se desço
ao abismo, aí vos achais. Se tomo as asas da aurora e vou morar nos confins do
mar, também lá vossa mão me conduz e vossa mão direita me sustenta”, (2022,
Salmos 139:7-10).
[4] “Existe alguma coisa impossível
para Javé? No tempo marcado voltarei a ti, daqui a um ano, e Sara terá um
filho”, (2022, Gênesis 18:14).
[5] “Vós me sondais e me conheceis,
Javé: sabeis quando me sento ou me levanto. De longe penetrais meus
pensamentos; discernis quando ando ou me deito, todos os meus caminhos
conheceis. Pois a palavra ainda não me chegou à língua e vós, Javé, já a sabeis
inteiramente”, (2022, Salmos 139:1-4).
[6] “Posse inteira e perfeita de uma
vida ilimitada”, Boécio (2012, V. 11).
[7] Se ser infinito que tem sob sua
posse plena e simultaneamente todos os seus momentos ou cuja vida é ilimitada, então
não tem começo nem fim. Os momentos de Deus, cuja vida é ilimitada ou que tem
sob sua posse plena e simultaneamente todos os seus momentos, não têm começo
nem fim. Os momentos de Deus, isto é, sua vida —, são ilimitados, porque Deus é
ilimitado. Então, ao ser infinito, não há a Deus efetivamente passado, a abstração
do que vem a ser o presente, e o porvir, como há àqueles que estão imersos
neste sistema temporal abaixo d’Ele, onde um intervalo e seus momentos é
limitado pelo começo de outro intervalo e seus momentos. Ora, não é, em tese, o
presente imóvel? Então dado que o tempo sempre esteja em movimento como está,
não existe efetivamente um presente em meio ao tempo, mas uma conjuntura
abstrativa entre o que é o passado e o futuro. Com efeito, o tempo por
mover-se, só o faz para o futuro. Então o presente é um ponto que efetivamente
inexiste no tempo, pois já é passado no instante em que é concebido.
[8] Não está acabado aquilo que não
tem mais para onde ir? Sendo o infinito imutável, segue-se que não tenha mais
para onde ir, pois está efetivamente perfeito, acabado ou terminado. Ora, quem
progride não caminha? E quem caminha não progride? E quem progride, estando a
caminhar, não permanece, mas muda ao se mover, não é verdade? Sendo o finito,
ao contrário do infinito, mutável, segue-se que tenha para onde ir. Segue-se
que o finito está inacabado e potencialmente acabado, tendo para onde ir; porque
quem tem para onde ir e para lá vai, dá-se que potencialmente já esteja lá.
Quem chegar ao lugar para o qual potencialmente vai, dá-se que atualizar-se-á,
deixando de lá estar em potência para estar em atualidade.
[9] Poderia o infinito ter vindo
depois do finito? Se o infinito tem, por excelência, infinitamente, isto é,
desde o início, a posse plena e simultânea do finito, como poderia o finito ter
vindo antes? Pode um ser vir depois de um outro sobre o qual tenha plena posse
e simultânea de todos os seus momentos? Pode um ser vir antes de um outro que
lhe tenha plena posse e simultânea de todos os seus momentos? O infinito, tendo
plena posse e simultânea sobre o finito, tem de vir necessariamente antes. E
não é o infinito fundamento de si mesmo? O finito que sequer tem a plena posse
e simultânea de seus momentos, vem necessariamente depois, porque nada a não
ser o próprio infinito, cujo fundamento se dá por si e que vem necessariamente
antes, pode lhe ser o fundamento.
[10] O tempo não é finito? Não é o
finito quem tem fim ou limite? Não é o finito ou tempo limitado? E quem tem
limite, tem fim, não é verdade? Sendo o tempo finito, segue-se que se esgote.
Logo, o tempo em algum momento chegará ao seu fim, e se esgotará.
[11] Se é o tempo quem muda ao mover-se
de maneira contingente, buscando realizar-se mediante a progressão sem cessar
no futuro, o contingente, que se deixa mover, junto ao tempo, sob comum
princípio de identidade que os estreita, indelevelmente também buscará
realizar-se em sua própria plenitude, buscando realizar-se mediante a
progressão sem cessar no futuro. Mas o tempo ao progredir no tempo, busca
realizar-se indo para o futuro. Não se move sempre o tempo para o futuro? Para
o tempo não é verdade que o futuro é o seu único caminho? Pode o tempo voltar
no tempo? À princípio, o tempo não volta atrás por livre iniciativa, assim como
os cabelos nascidos de um homem não retrocedem por livre iniciativa para dentro
de seus capilares, voltando no tempo ao momento em que eram apenas
potencialidade capilar de um nascituro. Ora, o tempo é contingente, assim como
os seres contingentes imersos à contingência do tempo. Então, o tempo busca a
permanência, assim como os seres contingentes imersos à contingência do tempo a
buscam. O tempo não se move contingentemente em busca de plena posse e
simultânea de seus momentos, ao avançar para o futuro? Ao avançar para o futuro
em busca da plena posse e simultânea de seus momentos, segue-se que o tempo
faça sem cessar, porque, se e se somente se pudesse voltar no tempo, perderia
momentos conquistados, pelos quais busca ao avançar no futuro. E quem busca,
não busca querendo buscar? Ou quem busca, busca não querendo buscar? Se
querendo buscar, a busca não envolve propósito: propósito de buscar? Logo,
mesmo se pudesse voltar, o tempo não quer voltar no tempo, porque é com
propósito que busca indo para o futuro, não para o passado. O tempo não
querendo voltar para o passado ao progredir sem cessar para o futuro, a todo
momento busca ter pela plena posse e simultânea de todos os seus momentos. Não
é o Ser aquele cuja posse plena e simultânea de todos os seus momentos faz-lhe
com que seja o seu próprio fundamento? Não é o Ser permanente? Não é o Ser quem
permanece o fundamento de si mesmo pela plena posse e simultânea de todos os
seus momentos? E não é o Ser que além de ter posse plena e simultânea de todos
os seus momentos, quem também tem posse plena e simultânea do tempo? Ora, mesmo
o ser que não permanece sendo, permanece sendo ainda que outra coisa, e se não permanece sendo coisa alguma, ainda permanece
sendo: ser; logo permanece; do contrário, não seria ser. E não é querer
ser, querer permanecer? Querendo permanecer, o tempo não busca o tempo
permanente? Querendo permanecer, o tempo, através de uma plena posse e
simultânea, não busca o conjunto inteiro de todos os seus momentos? Ora, o
conjunto inteiro de todos os momentos do tempo não é o tempo permanente? Não é
o tempo permanente infinito? Então o tempo cuja contingência sempre está
buscando, naturalmente, a permanência, busca o infinito, assim como todos os
seres contingentes imersos à contingência do tempo. Busca o tempo, e as coisas
igualmente contingentes por influxo do tempo, o Ser.
[12] Não é ser transcendente ser o
possuidor em relação ao objeto possuído? É o objeto possuído idêntico a seu
possuidor? Se o possuidor é ser transcende em relação ao objeto possuído, o
possuidor tendo sob sua posse o objeto não pode se identificar ao objeto por
ele possuído; se se identificasse, não teria mais o que possuir, tão logo
transcender —, porque seria possuído e não possuidor. Tendo Deus a posse plena
e simultânea de todas as coisas contingentes e seus momentos, segue-se que é
transcendente às coisas contingentes e seus momentos. Sendo Deus transcendente,
segue-se que necessariamente não é idêntico às coisas por Ele transcendidas.
[13] Tão somente contingente. O que é absurdo
em si mesmo. Ser tão somente contingente — o que é contingente sem nenhuma
necessidade para assim o ser —, implica que, necessariamente, seja contingente
sem nenhuma necessidade. Ora, já aí há uma explícita necessidade, não sendo
contingente sem nenhuma necessidade. Nada é tão somente contingente. Ora, ser contingente
contingentemente enquanto que tão somente contingente é uma impossibilidade
lógica pura e simples, pois implica necessariamente que, sob uma necessidade,
seja tão somente contingente, não o sendo, mas contingente contingentemente
enquanto que contingente necessariamente ou necessário contingentemente.
[14] O ser necessário, cuja
constituição íntima é necessária, é absolutamente necessário, por si mesmo, o
tempo todo. Já o que é contingente, cuja natureza é efêmera ou dada à
contingência, pode até ser de maneira necessária, só que sempre finitamente,
sendo apenas ser necessário sob aquele e não este determinado aspecto; é o
contingente se tratando de aquilo que poderia não existir, porque depende de
uma necessidade que poderia não existir —, apenas a expressão no tempo de um
participante marginal do infinito metafísico, podendo ou não ganhar
eventualmente um desígnio necessário para tal e qual ser igualmente
contingente. Para um filho, por exemplo, é ser necessário o seu progenitor —
ser também contingente —, sem o qual, necessariamente, não teria podido vir à
existência da vida contingente. Agora, inicialmente nenhum homem é obrigado ao
matrimônio, nem a ser progenitor; porém todo homem é necessariamente filho,
porque antes é prole. Ou se existe por si mesmo, ou se existe por outrem, isto
é, necessariamente contingente ou contingentemente necessário. Ser
necessariamente contingente ou contingentemente necessário expressam a
mesmíssima coisa: o primeiro, objeto contingente cujo papel agente sob tal e
qual aspecto é necessário; o segundo, objeto necessário cujo papel agente sob
tal e qual aspecto é variável. Ora, se o objeto necessário cujo papel agente
sob tal e qual aspecto é variar, então não é necessário, mas um objeto
contingente, cujo papel agente sob tal e qual aspecto é necessário. Em última
instância, o ser contingente que, podendo não existir, dependendo
necessariamente para existir do que igual a ele poderia não existir, depende
necessariamente para ser do que não poderia nem não ser e nem não existir.
[15] Necessário por si mesmo; absoluto.
[16] Necessário necessariamente.
[17] Logo, se se consegue antepor o
homem qualitativamente aos outros animais, também seres ou substâncias, se
consegue igualmente antepor o homem aos vegetais e a outros seres ou
substâncias abaixo daqueles.
[18] Não é o bem infinito o mesmo que o
bem supremo? E não é o bem supremo — acima do qual não há maior — o mesmo que
sumo bem? Logo; sendo Deus o bem infinito, segue-se que é o sumo bem.
[19] Mas aquele quem apenas escolheu a
maldade ainda que não tendo a chance de realizá-la? Se aquele quem a escolhera
está antes convicto dessa sua escolha, “porém de nenhum modo consegue realizar
o seu intento, no entanto o teria levado a cabo se pudesse, este certamente não
seria menos culpado que se realmente tivesse sido surpreendido em flagrante
delito” (2019, Livro I, III. 8).
[20] Por definição, não são os apetites
apetitosos? As paixões ou inclinações, apaixonadas? Os apetites apetitosos, as
paixões ou inclinações apaixonadas, não são eles desejosos? E quem poderia mais
imediatamente desejar o que não é prazeroso? Quem desejaria o que é doloroso? A
questão a saber é se o desejo é um tipo reprovável ainda que prazeroso, e se em
função dele antes admitindo a reprová-lo, tomar uma escolha poderá ser encarada
como má, tanto mais sua consecução posterior. Ora, a concupiscência é sempre
reprovável; se é concupiscência, então é reprovável. Não é a admissão convicta de
um desejo reprovável, reprovável? Não é a escolha por um desejo reprovável,
reprovável? Não é a ação tomada por um desejo reprovável, reprovável? Não é a concupiscência
o anelo desordenado dos apetites apetitosos, paixões ou inclinações apaixonadas
da alma, à carne? Não é o por meio da concupiscência que uma maldade é cometida,
pervertendo a vontade? Não é uma maldade reprovável? Mas antes tinha sido
necessário escolhê-la, não é? E mais antes de escolhê-la, desejá-la? Não é o
mesmo que desejar, querer? Mas quem deseja querendo, fá-lo com convicção, não
é? Então segue-se que a concupiscência é sempre reprovável, porque através do
seu desejo, escolha ou ação, comete-se um mal.
[21] Não podendo assegurar com razão a
carne, o homem pode, em função dela, cometer as mais horrendas barbaridades,
protegendo-se de eventualmente perdê-la a despeito de sua morte, porque, cego
ou fazendo-se para o fato de que morrerá, seu medo reside em não poder
assegurar sua posse durante toda a vida, deixando assim de satisfazer a sua
concupiscência. Diz-nos Sto. Agostinho: “O desejo de viver sem medo não só é
próprio dos bons, senão também dos maus, mas com esta diferença: os bons o
desejam renunciando ao amor daquelas coisas que não se podem possuir sem o
perigo de perdê-las; enquanto os maus, a fim de gozar plena e seguramente
delas, se esforçam por remover obstáculos” (2019, Livro I, IV. 10).
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