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Do Sonho

Nas madrugadas agudas e frias vivera um homem; um homem, nas incessantes noites profundas, pensara com angústia: foi este um insigne ensimesmado, um insigne sonegador. Seu resquício de senso dizia-lhe, muitas das vezes, para permanecer desperto; em contrapartida, seu abundante sono, por meio de os inúmeros estímulos do corpo — inúmeras vezes, repreendidos; dada, em maior parte, seu rígido feitio psíquico —, clamava-lhe o contrário. Foram esses seus ímpetos trabalhosos, labores reais, dignos, ademais, dum Dostoievski à austera natureza conflituosa ser mostrada, adjunto daquele notável engenho próprio. Tais pois eram as noites de um homem, cuja preocupação, latente repreendedora de a real vontade, tornara-se-lhe a impedi-lo de efetuar o descanso tão por si querido e, ao mesmo tempo, tão subsequentemente acoimado — ato pelo próprio sujeito, já a muito, exercido: de boicotar a si próprio, quase que instintivamente, vivera por muito —, coisa a que o fazia pensar, a conjecturar, se o sonegar teria de carregar a si, com afinco e veemência, até o próximo inevitável descuido, o qual lhe seria irremediável, irreversível, supra correlação aos seus consanguíneos —, portanto fatídico, possível último.

            Chuvosa e seca, fria e calorosa, tardia e breve; não bastando aquela incerta, senão certa, natureza que o rodeara, remoía-se incertamente, todas as vivas noites, em seus próprios calmos pensamentos, ao menos, parte deles vinham a ser de tal modo (calmos), os que pois não, quantitativamente significativos, ao passo de avulsos e incontínuos, a intimar-lhe certamente a moralidade sucediam, de modo contundente, socando, não qualquer parte, mas a sua mente: ao irmão levaram-se com a loucura de um fim belicoso, que revela, de antemão, o mais desorganizado, o qual será, em tese, o derrotado. Vejais; embora um seja rígido e ordeiro, qual uma completa medieval armadura, o outro, mesmo em desordem, se tem quais uns calibrosos frenéticos projéteis, e não quais umas ineficientes espadas, cujo fio se esvairia no primeiro impacto; e cá se dá a lei da prevalência tecnológica. Desde a última vez que adormecera, recordava-se, enquanto angustiado pela culpa fatal, manifestada pela ânsia advinda de acidentes duma arqué quase maternal, de tentar, inúmeras vezes, conjecturar uma miúda noite sem, lha inerentes, consequentes desastres; digo, pois, que o homem possuía reminiscências, estas não tão embaralhadas, a respeito das últimas cousas com que sonhara: definitivamente, por muito não foram boas, tampouco desejáveis, e pior lhe sucedia quando a manifestação física de tais tornava-se real. Parece loucura, bem sei; tão loucura, portanto, que caso tivésseis pensado numa possível errônea leitura do último período, então afirmar-vos-ia a irrealidade de tal pensar: digo, a vossa excelência, para que não se hajam ainda dúvidas, que lestes correctamente — e anotai no canto do escrito. Cá, neste ambiente, o que se parece loucura é, em verdade, racionalidade pura, mais, aliás, do que a fadada ao fracasso, estatização de os meios de produção, que não vai além de sonho malfeito, mas além de um puro fruto da consciência passiva — geralmente passiva. Demais, abstenhamo-nos de vosmicê (desperto ledor) por ora, sobretudo de o socialismo (adormecido) para sempre; à retomada sagaz atentemo-nos.

Em relação ao que nos dá a boa e velha quantidade significativa para o almejar do sono, todas as gerais benditas noites — tão escuras; tão sonolentas quanto as encantadas águas de Mirkwood, que tombariam até o mais desperto dos guerreiros dos cinco exércitos, os que, naturalmente quais legítimos combatentes, enquanto em possível campo inimigo, fixam-se totalmente em guerrear caso lhes forem assim ordenado, baixam, portanto, jamais os sentidos, muito menos os do ouvido, os que, então, se mantêm sempre aguçados, prontos para o auscultar dos mais distantes arvoredos a perderem-se algumas muitas folhas, num ápice autunal —, que à espontânea maledicência se subjugaram más, os ímpetos momentâneos, e toda a vitalidade cabível, da mente e do corpo, tal qual um sínolo, ininterruptamente trabalhavam: tudo para não, sequer cochilar, deixar o seu detentor comum descansar, coisa que, a esse ser então jamais descansável, a situação sempre fora qual, similarmente, num enfadonho jogo do pisca, em que, naturalmente, se espera o lépido ataque do pivete inimigo, este, com veemência, luta a querer manter o sentado grudado na cadeira, ao passo que o sentado, por sua vez, tenta se levantar o mais rápido possível, mesmo que enquanto a ser constantemente impedido, adjunto de uma força absurda e decisiva que ditará o mais hábil miúdo, cuja chance de pontuar aumenta, linearmente, à medida de mais batalhas vencidas; assim tinham sido todos dias e noites, dias e dias precisos, daquele miserável: de a instantânea infância à velhice precoce, lutara contra o simbólico levantado pivete, que sempre depositara a sua simbólica poderosa força corpórea, na consciência do simbólico sentado, que simbolicamente se mantinha sempre desperto —, em sua consciência, que se sucedia mais que ciente, apavorada senão, das consequências — não tão simbólicas — ao seu apagar por, sequer, miúdas decorrências temporais. Em resumo, assim lhe havia sido a vida; algo de bom lha aconteceu, é evidente..., bem..., do contrário, decisivos pretéritos-mais-que-perfeitos não se haveriam; ademais, não nos precipitemos, há, imagino, curiosidade, e há, afirmo, “descansos” até lá: ajeite-se ao pouf, portanto; quanto aos olhos, arregale-os.

Por mais que as vossas vontades naturais, claras senão, sejam o conhecer total, naturalmente e, portanto, claramente, revelo que o porquê do não descansar por parte do homem, seja, em princípio, substanciado por fatos inverossímeis, situações, porquanto, que não ocorreriam de nenhuma maneira, e que, em tese grosseira, não deveriam sequer serem hipotisados em realidade; assim contar-nos-ia a moderna ciência adjunto das suas mais vitalícias teorias, hábil medidora, inábil diferenciadora de fato do fato teoricamente descrito por suas mecanicidades e teses intelectualmente muito elegantes; humildemente parto, e o homem de quem falo também, de um cosmos infinitamente desconhecido — e reitero tal crucial substantivo adjunto de seu devido adjetivo; e não nos esqueçamos do também advérbio, hiperbólico objeto —, onde, embora pareça lhe prevalecer o mutável, há-se-lhe também todo tipo de imutáveis formalizados egocêntricos, cuja imensa soberba e jactância engana os próprios resquícios de intelecto verdadeiro, este, já a muito, lhes inútil, interinado, qual por uma ancestral máxima, pelos prestígios de se ter diversos papeis empalhados... Postulo, portanto, a mutabilidade imutável, ergo estável, de nosso maravilhoso magote atômico, embora instáveis elétrons ataquem-no como de vez em quando. Agora, já que nos situamos num mundo de possibilidades inesgotáveis — as que embora não impliquem em ser verdadeiro o puro relativismo ao hospedeiro; isso é relativo à verdade, núcleo do magote atômico —, de imagético meio, ainda não verdadeiro, passível de ser senão, imaginai um homem que, por o simples movimentar dos dedos, causaria ventaneiras potentes, suficientemente capazes de destruir aldeias e vilas, sobretudo cidades inteiras — a levar em conta sua pífia lança em comparação ao natural dom de mutar a natureza, Izanagi a inveja trazer-se-ia como a si trouxe Caim; de a parte de Izanagi, interesse ávido por tal ente dos dedos mágicos, depois, é claro, de os seus calibrosos leques de carne e ossos —; que seria de um homem como esse? Passível de tê-lo?, em sentido de aguentá-lo em existência conosco... Assim questiono; já bem sei a resposta, no entanto... Ainda de imagético meio, outro, porém; pior, contudo; melhormente, ao menos, inteligível — assim creio com todo meu nuance achismo —; manifestai a bela moça que, por conta de as suas madeixas vistosas, de um brilho, e perfeito comprimento, invejável — invejável até pelas mais lindas da primeira metade do século passado que, adjunto de o curto e ondulado, reinavam, a servirem de inspiração modular às futuras arrumadas, refletidoras, qual a lua, de a luminosidade original —, acarretaria em uma pandemia de piolhos, os quais, numerosos, não só em número quantitativo, não se contentam apenas com mexas elegantes e finitas, mas, sim, pós esse elegante primeiro estímulo, pela vasta quantidade de penugem presente no mundo — consequentemente pelos compridos rios rubros que, por debaixo daqueles agarráveis papiros, se encontra ramificado, a fluir rumo ao mar cardíaco —, sobretudo pelos púbicos de alguns: difícil seria tirá-los de lá, portanto tal natural desejar; pergunto, então, que seria de uma moça como essa?, em mesmo sentido da questã de outrora, bem como em sua retórica. “Que não só fiquem no sangue de sua cabeça, mas que a comam por inteira; ou melhor; que, se acaso ela exista ou venha a existir, desapareça, ou que venha a desaparecer, imediatamente, se não, então que assim continue (inexistente) — e que o indelével desta afirmação seja vitaliciamente real”, assim pensaria qualquer sensato quase atemporal, até os mais morais os que serão, inclusive, alguns dos únicos a reconhecerem a amoralidade contida aqui: nos cá exemplos imagéticos. Porquanto, ainda de imagético meio, outro, porém; triplamente melhor, no entanto; a ser o terceiro e último; já pensou, a fazê-lo de modo que se siga com o senso apresentado, se o problema fosse um ente em específico, cujos sonhos, quaisquer tipos, se manifestassem dentro de vinte e quatro horas, após os seus propriamente sonhares e, de modo factual, em nossa realidade? — a mesma em que vivemos, andamos e comemos. E pergunto ultimamente... Que seria de um homem como esse?... Exatamente; um homem como esse...

Se pudéssemos aceitar algo do tipo, então teria de ser por meio do intermédio divino: apenas Deus seria um sonhador verossímil, capaz de cunhar factualmente, em totalidade do que existe, o físico, de a melhor forma possível; o homem mesmo que capaz de obter, ou naturalmente ter, tão exclusivo acidente, deviria insustentável, sobretudo inviável, e, demais, independente de quaisquer Rousseaus cá presentes, até o mais isolado dos homens jamais conseguiria não acarretar, mesmo que não por querer — indiretamente o faria, fatalmente —, o possível e plausível, sofrimento; e assim fora a vida do homem, cujos sonos, mesmo que fundamentalmente amorais, desgraçavam mais de meio século existenciais; e tal fora a vida do homem que, por um simplório conforto ou, até mesmo, um simples bocejo, tanto se repreendia, ao ponto de obrigar-se, com aferro, a não em descanso pensar, sobretudo a nem conjecturá-lo um dia a si —, e, sim, a jamais se desviar de seu aparente vitalício pesadelo desperto, que lhe circundara, por muito, a existência qual uma improvável agonia, originaria de uma sapiência no que tange o específico dia, de o inevitável fim extramental; e tal fora a vida de um homem que, em todas as possíveis noites, rogara a Deus, para que, caso viesse a fracassar e, portanto, dormir, lhe provesse, o Senhor, os sonhos bons e jamais os ruins: “Vós me destes tal dom que, me queirais perdoar, ó Senhor, mais parece uma maldição; peço ao Senhor, de o fundo de minha fadigada consciência, que, fosse assim de vossa magnificência vontade, provejais-me, ó Senhor, o bom sono, precisamente no que diz respeito ao sonho, para que, posteriormente, não só a mim tenha sido gratificante o descanso, mas, sobretudo, aos meus semelhantes o futuro dia que lhes parirá meu imaginário em físico âmbito...”, repetia em alto e bom som, reiterava em bom retumbo intramental, a apertar, em finalização, os estropiados dedos da mão, acabados aparatos de um ilustre operário, sem folga ou recompensas, dum produto caótico, massivamente refeito e rasgado. Tal fora a vida do homem que, infelizmente ou felizmente — mais, a princípio, se encontra em infelizmente; e em princípio, caberá a vossa subjetividade sensata discernir —, dormira; não por muito o tinha feito — algumas poucas vinte horas, trinta minutos e quarenta segundos; depois, acordara lépido: mais do que ótimo e diligente —; tudo de pior lhe sucedia por conta das reminiscências, que, no tocante aos sonhos, são nada enroladas, tampouco postergadas per o vir ao mundo, bem, aliás, relembráveis, mais do que o lado dum quadrado de oitava área —, são consequentes contempladoras, portanto, de a dantes culpa, culpa — lhes próprias inerente —, ao passo que esta, conseguintemente, leva-se ao seu infortunado hospedeiro, cuja talentosa dialética ascendente, robusta e inata, é deturpável e subjugável.

— NÃO ME DOU POR VENCIDO!... — dissera; pós por ter dormido mais uma última vez, a desafiar sua própria divindade, bradara o homem, pós suas inúmeras orações falhas.

 Cá, posteriormente ao supracitado dialogo único — uno até no que diz respeito aos seus feitores, bem como aos seus auscultadores; muito menos, então, diálogo é de dicionário: é um que condiz, unicamente, a um tipo elevado de contido verbete, cujo conjunto dicionário é o próprio conto que escrevo —, teremos, a nós mesmos, o mais próximo do linear dum romanesco enredo, aqueles mesmos de folhetinescos tempos; Cronos certamente ajudá-lo não irá mais do que eu mesmo, adjunto de meu renascido engenho, dantes desdenhado, quase finado e apodrecido, assim decorrente de umas pessoais intrigas, internas e externas, já fenecidas e enterradas, outrora, porém, vigorosas, causadoras de amarguras e decepções, nada, agora, mais esbanjam do que a poeira lembrança de seu soterrar por mim muito adiado, feito, senão, com caixões metálicos, mui bem soldados se não fossem umas ardilosas porosidades: vindas de uma imperfeita solda, contribuintes para com sequelas tourettíssimas, estas ininterruptas chatíssimas, cuja tormenta psíquica é tão cansativa quanto criativa; propriamente minha pessoa não importa, tampouco cogitara colocá-la aqui, porém o corromper-se decisivo é de supetão: repentino e de estabilidade estável, fosse antes bem postergado — não obstante, e aproveitando-me do gancho oportuno, a um próximo possível diagnóstico com o qual venha fitar, o faço, eu mesmo, a mim mesmo: de humanidade sofro... qual Flaubert. Em todo caso, principalmente em pretérito do passado, o homem, e de aquém que partamos nós, após acordar, pós seus dez minutos de aguda reflexão, estas, várias, foram repletas de uma dor de mesma característica, como a acupuntura em errada epiderme: aguda e contrária; vinham-se-lhe, pós reflexões escabrosas, os sonhos mais relembráveis, todos de uma reminiscência invejável, os quais, lepidamente, fizeram de nosso conhecido um mais angustiado e irritadiço ente, um desperto a devaneios e atormentador de criados-mudos, um melancólico tão farto de melancólicas que a Cubas trariam a vergonha por causar melancólicas as suas memórias... Melhor explicando: aos cursantes de letras; de o propriamente finado, o homem de quem falo não se há-lo, tampouco o houve a si ou havê-lo-á tão cedo, mas, como todos os mortais, inquestionavelmente em imprevisível momento, havê-lo-se-á — digo que o fenecer, por outro lado, pode se dar em distintas formas do perecer físico, por puro capricho da existência —; agora, aos mais eruditos: também bem explico; de as negativas, o homem de quem falo, por imperfeita analogia, desde o princípio as tivera a si — foram-se-lha qual um miserável, que já nasce na miséria (coisa precípua), cuja erosão miserável deteriora-se mais, a ficar a minúsculos desceres da degradação total —: desde o seu nascimento ao futuro constante, tampouco implicaram-se-lha, servindo-lhe de amortecedores, como qualidade pessimista ou galhofeira, obtida pós suficiente(s) desconcertante(s) ocorrido(s), tendo em vista o seu inatístico défice em paralelo ao adequado contrapeso, não suficiente, porém, à justiça consequente, cuja existência deu-se por esperável e esperada, esperável e esperada, e assim sucessivamente; se não ter filhos fora um saldo a Cubas, embora muito se duvide de sua franqueza quanto a isso, ao passo que o fracasso de seu emplasto uma negativa, a nosso ente um saldo foi o fracasso, cuja caracterização dera-se por ideia fixa, a rumar-se à supra negativa —, tendenciando-a, não a médio ou alto juros, mas, sim, à impagável dívida — e aqui se dá o novo efeito da melancolia mais melancólica, ausente, todavia, de quaisquer tintas ou penas, já secularmente mui conhecidas. Ah, esse Cubas...; sommelier sapiente de semilhas, nunca permanecente detentor de tais, a ficar preso por seu insaciável palato engomado: um insigne (qual morto: emérito) entusiasta pelas boas, mas, ao passo de uma gorjeta mal dada, obtentor verdadeiro das estragadas — e, ainda assim, sapiente de semilhas..., ao passo de detentor se não fosse a sommelier alcunha. Em resumo, se não mais é melancólico, então é acirrável, pois, correlação ao rival, de igual propriedade compartilha: determinar-se-á acidentalmente; que fique ao critério de vossos olhos aguçados, cujo preconceito responderá. Demais, digo que não; não tal qual as retrasadas, não permanecera a sofrer junto do que verdadeiramente amava: resolvera, por conseguinte às lamentações — mais fortes do que anteriores —, materialmente agir, de a pior maneira todavia, a querer o que não lhe cabia; em vez de evoluir, ao contrário, despencava a si, em meio à tempestade, dum barranco e, rumo a uma inesperada ravina que surgira por ímpetos temporais, sem fundo e quase sem escape, mesmo a ser-lhe evidente a força descendente e a inevidente sutil, possível suave recuperação no tocante, permanecera, é evidente, a sucumbir, interior adentro, por longas eras, períodos, épocas, todos de finitude espectral e infinitos em adversidades... — que lho digam as fadadas ideologias! De uma caótica tolice, desafiara Deus e seus anjos, dos anjos desceu aos santos, e, desses, aos seus próprios semelhantes: alguns buscantes de a santidade, outros estagnados ao passo que cansados, pós cem metros rasos; arrependia-se vexado após largas horas, as quais, repletas de desmotivantes sibilos —, atônitas e lerdas, como se a lentidão proposital lhes fosse, mais lhas pareceram anos ante anos num árduo despenco, a levarem-lhe quase que a sanidade completa pela extensa boçoroca neurótica, que quase o desaguara no dual, lamaçal da loucura; no caso, viera-se-lhe, próximo de a fatídica correnteza, uma dor intensa à têmpora, conseguintemente o arrependimento que se iniciara no quebrar da potência em causa de um oposto ato primordial: o ajoelhar de seu manifestante ante a cama — potencialmente em diversas orações calmas e temerosas: contemplantes dum tremelique espinhal, acompanhadas dum palmar desigual... Que perfeita devoção e aceitação final: conquanto temente, arrependido deu-se, cientemente e verdadeiramente; uma queda, no entanto, é uma queda, assim como um engodo é enganoso; que tratemos, em objetivismo porquanto, de o pecaminoso. Digo-vos; antes, senão, de se reconcertar com sua divindade — e antes mesmo de lhe jogar o desdenho —, vivera a assemelhar-se com um espécime de morto-vivo: pior do que vivo, melhor do que morto, em estado vegetativo semiativo —, de plenitude potencial quase zero.

— Dize-me, homem!...

— Mas, doutor...  — contrapôs, fazendo-se ignorante, o homem, a poupar-se de mais mentir; podre por fora, pior por dentro: em sua fala fora perceptível a lentidão física e fantástica duma múmia satírica, e a fria e horrenda postura dum depressivo: contemplante de uns olhos paralíticos, antecipador de o próprio velório maldito. Pior sucedia ao ajudante alívio. — Vejais; se vós não sabeis, como hei de fazê-lo?! — perguntou o bem-intencionado, ao doutor inquietado.

Foi esse acima mais um episódio num hospital, agora, quanto a diferença às outras consultas, fora, senão propriamente, de qualidade sequencial ao magno abandono, bem como, senão propriamente, ao repúdio — menos importante, todavia; importante, ao menos, por existir — da sua temperança em potência, como anteriores aos mais novos ímpetos liquidadores da mais pífia melatonina, pelo vívido e inútil; numa síntese, concluo e, evidente, sumarizo —, foi-lhe esse, supracitado acima, um especial gênese, precedendo, e advindo como acidentado, o se desvencilhar total de seu condão inato — em inerente adição diferencial com o desvencilho eficiente causal, desse mesmo condão; a precisar, deu-se de modo inverso (causa eficiente e, posteriormente, condão inato), mas cá a ordem dos fatores não altera absolutamente nada, se me cabe o comentário, apenas a velocidade com que se dá o entender —, captável, mecanicamente, pela primeira vez, em mocidade, de a mais caótica maneira, de maneira que lho fora completamente indomável pelo engenho ou quaisquer artes..., agora, cognoscível, em um mais jovial passado, per a razão adulta, apesar de ainda uma feitoria vexatória e pueril mantida, de modo que lho fora ausente de sisudez. Em epítome, a diferença material é nula, enquanto que a qualidade superior ante todas as de dantes pelas quais passou. Digo, porquanto, que não foi esse um propriamente início aos ineficientes ímpetos resolutórios — incompletos; fraquíssimos —, almejantes duma vida unicamente dependente do materialismo, correlação a algo sequer explicável pelo tal salvante intermédio. Veja, até os pré-socráticos o perceberiam (o problema) como ausentado de origem e governo, sobretudo cosmo —, como, portanto, explicar-se-ia por si mesmo? Mesmo assim..., da physis intermédio, inatural à questã que promete resolver... resolver. Tudo passara não, então, de um placebo bem feito: tanto ao paciente quanto ao paciente, que, embora não totalmente perdido — jamais esteve —, desperdiçara tempos preciosíssimos no reconfortante placebo, atraente até mesmo aos mais plenos. Digo, muitas vezes, todas em que à medicina levou-se, durante alguns muitos anos, mutação se houve apenas no profissional com o qual consultara, que, periodicamente, mudara até o definitivo cansaço de o seu comum, quanto a um todo, auxílio; os médicos, aos quais se levara, jamais preparados estiveram para a real verdade, o homem, dela conhecedor evidentemente, dá-la não ia tão rápido, tampouco tardiamente: possível não seria e nada com isso conseguiria, a não ser a maledicência alheia ou mais grave coisa, qual a possível, talvez, improferível alcunha de louco — sem dizer, quiçá, os “ó gira” que de miúdos viria a receber —, restou-lhe o trocar desenfreado, a vagabundagem, a suprir-se as expectativas de que, um dia, salvar-se-ia tal qual um normal enfermo: consultando-se, medicando-se, a depender, para tal, evidentemente de um campo imediatista e preciso para com o já conhecido — o atendimento e decreto clínico. No sumário dos deveres, esse tipo de viver passou a ser mais recorrente a cada fechar de pestanas — por mais rápido que sucedesse o cochilo; alguns nem chegavam ao efetivo descanso, sequer sonho —, até, justamente, o acontecimento inicial, cujo edificante sonho foi agudíssimo; e, já mui cansado, decorrente da troca incessante — agravada com a irresolução de aparência infinita —, foi-lhe necessário um vício atrativo e, em princípio, eterno, altamente reconfortante: mesmo sem a mínima sapiência, a isso levava-se inconscientemente; já atiçado e devidamente determinado, a ideia de um médico foi-lhe clara qual o interior do Palácio de Buckingham, límpido ao ponto de uma pequena mácula ser requerida ao equilíbrio, assim diria a suja tentação; quanto ao prometido, a esse posto coube um diferente, um insigne primor com muita redundância, um tipo de profissional que, caso um grego antigo estivesse a vê-lo, poderia ser classificado como semideus ou o próprio divino — “Isso! Sem dúvidas... Asclépio lhe bastará, homem! Assim como basta, a Homero, os jovens piolhentos, assim qual basta, a Platão, a democracia ateniense”, assim lho diria o heleno.

— Certamente! Entenderei... — disse o do jaleco, estagnando o movimento incerto; fosse não o costume desconfortante, o bigode sempre estar-se-ia desleixado, e não dualmente arrebitado como de costume garbo. — Sinto... A verdade é que, com toda a franqueza médica a qual me cabe, sinto que escondeis algo de mi... Ah, não diga nada... Mui bem sabeis do que insinuo. Treplico, porquanto; havei de dizer-me: agora, ou noutro tempo. Tende, realmente, de escolher alguma alternativa ou continuará, do contrário, a sofrer do por ora nos desconhecido; em resumo, basta me dizê-lo e o tratamento lhe providenciarei.

De desconhecido, nada havia — apenas ao “Asclépio”, imagino —: ao enfermo, tudo era conhecido, sobretudo o motivo de estar parcialmente fenecido, agora, tal como sutilmente apontei, diferentemente de todos com os quais consultara, com esse sucedeu a raro ser qual os diamantes que os mais bonitos anéis informam, substâncias desejáveis ao ponto de moeda valer. Tal doutor, em específico distinto, sempre gostou de saber a respeito das mais diversas cousas — em maior parte, desviantes de serem problemas fatalmente discutíveis — de seus pacientes: de dores físicas às psíquicas, desde as hérnias de disco a culpabilidades mentalmente instáveis —, a sua última própria magna fascinação: de tristura, por excelência, sempre se alimentou, e não de pouco; e, depois de as mais ninharias — julgadas assim por seus colegas profissionais, ignorantes de a melhor fina dieta —, em suma, psíquicas, voltava-se ultimamente às patológicas lhe habituais; apegando-se, então, com sutil primazia ao psíquico âmbito, que muito provocara o agrado e ódio aos de quem falamos, tal doutor sempre se levava ao avançado correlacionado, jamais apenas no clínico estabelecia-se: aos extramentais fatores das problemáticas intrigas mentais, direcionava-se com extra vigor, a lá se impregnar qual se impregna, mesmo que inconscientemente, a filodoxia nos jovens de hoje em dia — “Sempre tê-lo-ão. Aí se encontra a mina! e o ouro! Por conseguinte, um garimpeiro de bom bolso”, assim ele achou, assim sempre se proferiu; sucedia a “Têm de havê-lo..., há de tê-lo...; senão quem sois vós? Realmente homem? ou que tipo superior animalesco?”, de seu último paciente assim pensou: não havia até então conhecido um superior animalesco. Às que (extramentais fatores) por conta de o que nos é protagonizado a cada centímetro laudo, especialmente salta-me, e a de alguns também, sobretudo mente afora do próprio esculápio, a incapacidade para assim definir as ninharias de seu mais novo paciente: acaso como se decorrentes de as hábeis mãos de Michelangelo, bem como se quais, pelo artista erguida, da final escultura — bem vale esta minha humilde óptica, assim como bem vale a elucidativa alegoria de Platão. Demais, bom médico, lépido galeno, a psique de outrem bem mais lhe instigou olhares do que seus padronizados livretos clínicos — repletos de os mais excelentes couverts, porém faltantes do essencial prato precípuo, cuja solitária admiração não se sustenta sem os conseguintes ávidos carnívoros —, e não só os dele (apertados), mas, também, os de seus pacientes (arregalados), os que, deslumbrados com a magna sapiência e persuasão de seu primor doutor, ficavam, in gran finale, mui felizes: deveras otimistas com relação aos seus diversos existentes problemas, a poupar-lhes o tempo e provisões de a um especializado levarem-se, bem como, portanto, de se preocuparem com o dispêndio mui exacerbado, sucedido a baixo ou nulo, em maior parte nulo... inclusive correlação à eficiência, cujo custo-benefício lhe balanceia à mediocridade, rente à real inferioridade. Se cabe uma evidência, em sentido que desconhece a moderna ciência: podiam, os muitos pacientes de tal deus grego, tê-lo feito, contudo, a si mesmos — e isto comprova-se por si mesmo —; deveras escapou-lhes a perfeita chance do se reerguer, a bastar-lhes a própria vontade por assim dizer, em conjunto de umas boas horas de mãos unidas, rentes ao busto, e franqueza sobretudo a si mesmos — mas não nos empaquemos a leitura nos revigorantes bons ajoelhares confessórios; não agora, ao menos; à pequena casinha voltemos em outro horário... ainda este ano, é claro. Además, se esse esculápio — e neste sigamos atentos — aos campos psíquicos se tivesse dedicado desde a maturidade, decerto subir-lhe-ia uno gozo... conseguinte ao próprio acordo, precedente de o poder a maior estabilidade de seu uso, adjunto de o também requerimento dual, necessidade de um paciente ao exercer de seu diletante ofício; assim como refere um génial tomo francês:

 Tal su vocación

El estudio de una vocación intelectual representa, además del inmenso interés de realizarse uno mismo en su plenitude

— alegra-me A Vida Intelectual (La Vida Intelectual) de o padre Sertillanges, traduzida ao irmão ibérico: fora como a li; que auxílio à ajuda verdadeira! —, não obstante sejam as diferenças correntes, e pesares, que são fatais, e vencíveis — per o eterno pró —, de tal divisora plenitude em contraponto à sua hipotética “plenitude”... Exatamente, pesares... aos homens..., aos que não, apenas lhes sobra o oposto de genuino, bem como, na falta de a específica ocasião eternizante, o próprio efímero; agora, de antemão, mesmo com todo o semiformalismo mui efetivo... do tal doutor, não deveio mui útil ao homem ao qual nos prendemos a atenção precípua, a decisivo, porém, definitivamente sucedera, longe, todavia, de o intrínseco carregar duma utilidade positiva, em que, a princípio, muito se espera ocorrer quando se há a manifestação do termo em questã, caso contrário, por exemplo monetário, nem se entra no ativo volátil, cuja valorização espera-se farta. Adjunto de os cuidados necessários, todos devidamente prescritos em acordo com a ciência do corpo, e com o que alicerça o bem-estar promovido pelos bons externos saberes do astucioso e glutão Dr. Guimarães, o exímio doutor, infelizmente, falhou em proporcionar ao seu diferente paciente, o diagnóstico e/ou a cura — até mesmo a recorrente manutenção esvaiu-se da mente médica —, tampouco os fez em seu deleite reconstrutor, no qual, pós alguns dizeres introdutórios — ausentes de a mais pura lassidão —, lentamente torna-se à psique, a garantir sua satisfação única, e a de seu beneficiado que é, todavia, breve e múltipla, lobotomizada e inferior, lha ulterior ao novo lótus-hábito em espécime dum diário medicamento, cujo colateral efeito manifesta-se por um intenso desejo de combater si próprio, mediante mais medicamentos diários. Às vezes, em verdade, não se pode ganhar tudo, mais, não obstante, concentra-vos, e isto é um adendo, em descobrir o ruim advindo de seu pior, cujos adjetivos, qual um grã riograndense, corresponde-se a malo atributivo, com um bocado, adicional e extrínseco, dum substrato nominativo, adjunto de propriedades, igualmente à essência, negativas. Não bastando, portanto, o falhar em seu habitual bem-afamado, também veio a bem mais perder no inesperado: possuiu a má sorte de ter como paciente o homem dos sonhos reais, feitores do miserável e/ou enganoso, do mortal e/ou criador; o doutor, em suma, sucedeu ao óbito de si após exatos seis dias das constantes visitas de nosso conhecido, no sétimo, no caso, já descansava eternamente — e, igualmente em Gênesis, via o Senhor que era bom... —, vítima de uma colisão de automóveis por, supostamente, ter se assustado enquanto a dirigir o seu próprio, o que o fez levá-lo de encontro a outro contrário; o outrem, de o outro veículo, sobrevivia afortunadamente, sem nenhum grave arranhão — curiosidade: fora este sobrevivente, há tempos, paciente do fenecido barbeiro —; quanto aos outros antepenúltimos — fosse a avenida movimentada —, também bem-aventurados, todos evidentemente sobreviviam, aliás, colidiram-se sequer, mui menos se assustaram, pelo intenso capotamento que, logo em frente, lhes ocupara a direção precípua. E tal fora a vida de um homem cuja chance de melhorar abolira-se-lhe qual água em panela a ponto de estorricar, a, no mais último sonho — pelo qual fracassara mais uma última vez —, desaparecer com o tal único possível homem que ajudar-lhe-ia a República Romana, prestes a se ir ao ato imperial, impedida, contudo, pelos precoces bárbaros —, e, num estalo borboleta, retornara a Eneias — prestes a chegar no Lácio. Mais um progresso, em quilometragem, reduzido, pelo esperto vendedor. Em síntese, reduzível usque ad initium: o precípuo fator permanecia ativo — resistira aos défices aritméticos, assim como resiste ad aeternum, o médio comerciante — como a fraca brasa, não mais, porém, a chamejar, ao passo de se apagar, e, inesperadamente, adjunto da potenciação oxigenada — advinda de algum lugar que desconhece a brasa —, sobressaia-se, a queimar, com direito a chamas anis, qual o céu que os altos cirros evidenciam.

A volta por cima, uma hora ou outra, viria — veio, admito; não tão cedo, porém; não tão tarde, tampouco —; demorou — esta é a verdade —, em síntese, um bocado, em sentido quantitativo alto-baixo, apenas enrolos para o termo médio, no que diz ao fictício tempo quantitativo, com direto a uma aceleração impermanente, inevitável. O homem de quem falamos, a princípio, posterior a essa primeira e última dormida, ceifeira viável de clínico, provedor da recuperação provisória —, mais se caluniou do que antes, mais se molestou do que todo o seu viver até esse presente passado, fatídico, postergador de fé, genitor do infortúnio, provedor de uma nova chance no futuro, no que diz ao factual tempo qualitativo, com direto a uma aceleração perpétua, condicionada. Agora, no meio-termo secundário, não se conteve os ímpetos transgressores, mostraram-se legítimos avoantes — de as apenas angustias à perdição total —: além de se desandar totalmente, destinou ódio e impurezas, por meio de o sobrevoar, utilizando, bem como, de palavras ingratas e, por excelência, fraudulentas, quais neutrônicos bombardeios, a qualquer coisa que se mexera..., digo, mais aos imóveis — tão lhe presentes —, mais-mais, apesar, ao próprio ser que, feitor de as indelicadezas, foi o verdadeiro errado — um pobre coitado — que apenas lhe faltara a certa sapiência, cuja tangencial trajetória, posto um elucidativo modelo orbital, passara, não ante si ao desconhecido e, portanto, em princípio sucedeu a inofensivo, mas ante si ao errôneo, e assim consentido, por a ignorância nascida, per isso; entre agressões, adjunto de atributos extramentais, próprias e de alheios — um deles, por exemplo? Pra já! Todas as alfais de sua bagunçada casa —, após longos quatorze dias de calamidade pueril, pós quatro meses em par de quase dois contos de garrafas alcoólicas — dos mais diversos tipos: desde fortes a fracos teores, com direito a caseiros duplamente cegáveis —, preferira, a segurar-se para não se fazê-lo, levar-se finalmente para estudar as geologias dos campos santos — tal como os velhos amigos de Bentinho, o essencial promotor —, precisamente aos campos de mais profunda qualidade — ao segundo vale ao qual se fadou Minamoto, o honroso pecaminoso —, onde, pouco mais em baixo ciclo, encontra-se o curandeiro de dantes, que agora sacia-se dos mais fortes açoites. De pueril e beberrão, deveio ingrato e parvo; de um viaduto, pronto para jogar-se rumo às profundezas do fenecer real, determinado a destruir até o último resquício de seu poder extramental, atentou-se e, conseguintemente, parou a si em tempo correto..., digo..., ainda lhe adveio uns passos à frente, efeito rebote à percepção da loucura, mais, porém, três contrapassos, efeito real de recuo e, portanto, consciência legítima, conquanto a sua origem repentina e desconhecida, a despeito, porém, não com relação ao seu governo; o homem, já adiado de o mortífero momento, não conteve a si, não os ímpetos! em caso desta vez, não o evento que me foge o verbo descritivo adequado! mas aí vai — com os auxílios máximos, se possível, de as Tágides de Camões; dai-me, musas, não uma fúria grande e sonorosa, tampouco um estilo grandíloquo e corrente, mas uma substância narrativa rigorosa, que a vosso rio Fiódor levar-se-ia alegremente! —: próximo da berma, enquanto poucos automóveis manifestavam os seus embaçados, despencara-se ante o concreto áspero, e, sobre este, posto-se-lhe um semblante de abatido, chorara ajoelhado pós o despenco de seus braços — demorou, senão, para percebê-las, logo, porém, entendeu-as, já a enxugá-las —, e até a última espeça gota expelira, depois deu espaço às finas, tudo sobre uns vários butins envidraçados que, decorrentes de um acrônico trago motivante, adjunto de o sol dito forte, irritavam-no, sobretudo o rubro olhar do pobre homem — e aquém sucedera o que é conhecível da origem, que outrora o governo lha provinha por meio da transversal colisão —; não obstante, em demasia, o choramingo, fê-lo até o ponto em que, cansado, se levantou lépido e rígido, e, ciente, já suficientemente passível ao que sempre procurara, cuja exata busca encanta e inquieta, cansa e prestigia, à sua casa caminhou por oficial escolha, assim como caminhou Orwell; é decerto como, em análogo, um fracassado predador faminto: pós sua pífia caçada diária, leva-se, o desnutrido, ao seu abrigo como de costumeiro, neste dia, todavia, preenchido pela recorrente composição milagrosa de antílopes, nascentes da inorgânica matéria pedregosa, idiotas e corajosos, até um valor específico que, após este ser totalmente devorado, repete-se o ciclo, a bastar ao bem-aventurado tão somente o esforço do predatismo; no mais, em retorno ao sábio covarde, à residência tornou a si, distanciada esta per míseros dois pueris quarteirões: quisera o homem ser achado rápido qual, a se esconder, um miúdo adorável — uma flor, mas educado; jovialíssimo! ao passo de não conter os reveladores risos —, e, para tal ocasião, até um grã bilhete havia composto, em um último suspiro artístico-engenhoso, a ser uma pequena pista para o seu próprio achado, renascido, se pulado houvesse, num simples macaco; ora, pobre homem! mal imaginou ele que achado fora: desde o princípio ao fim-início, de a sua casa àquele viaduto..., viaduto que hoje — posto fosse a plenitude, não mais que composto em simbólicas imagens noturnas, ausentes de as mais sequentes angustias —, como, fosse a ligação psíquica, um símbolo pontífice, entende-se por haver sido um intermédio entre boicote e decisão forte no que toca o “prolongado ataque de uma enfermidade dolorosa”, contornável porém, abolido, senão, pela consagração.

E por aqui acabamos; valido um fim enxuto! um adiante prolixo assaz verboso não haverá, porque o começo primo e meio revelador, em resumo dos deveres, são um fim mais perfeito que se pode haver. Inquieta-vos com tal conclusão?..., bem..., antes do meio, posterior a esse, vede, e tirai as vossas próprias conclusões. Ademais, os contos, os belos contos, digo, impassíveis estes de conhecê-los a não ser por uma ascendente dialética, assim Arístocles dir-nos-ia, isto se acaso o filosofo não fosse cabreiro à mimese, sobretudo à contraditória, porquanto, asserção de belo num conto, a ser-lho, fosse possível, um engodo perfeito, que, não obstante o adolo hipotético, é justamente, referente ao conto, a perfeição de enganar o seu insigne talento: caracterizado por estar a graus da verdade, promovendo a descendente dialética de indevida maneira — sem visar, como a posteriori, a ascendência —; ora, Platão..., sucedo-me pior de os que da imitação se utilizam, e comparável, per categoria, a vós. Veja, os belos contos são, às vezes, possíveis positivos, artifícios imitativos: ferramentas práticas que possibilitam ao homem, mesmo que falsários, o mais fértil dos narrares — e aqui, correlação: característicos contos por estarem num grau abaixo da própria mimese —, que, por mimético ser, a nuance, entre real e sombras, lhe é basilar, cujo objetivo, aí sim, torna-se levar inúmeros ao belo, e já para isto são muitos os conceitos e enredos pelos quais se agir: desde a inata matemática que fora esquecida, a uma alegoria que elucida; desde botas animadas, a um, por navios, maníaco miserável; desde um exímio que é insigne, ao fracassado que é emérito..., pobre, em síntese, sonhador genial que, enquanto consumido pelo vasto apetite dos externos, deliciosos que distraem, viciadores que destroem, tornou-se ao que realmente lhe edifica a pessoa, qual..., vejamos..., a molécula de água... que, à mercê de os seus átomos providenciados, tem como objetivo a molécula de água. Se belo não é em si mesmo, então é belo por exortar-nos à beleza. Se, no entanto, acaso a curiosidade não cessou: se ainda não se aboliu os inatos ímpetos conhecedores de vosso olhar — e aqui Aristóteles comprova mais um vez a sua teoria —, vejamos... Em um escurecer, em uma escuridão dos mais gradativos entardeceres — tal como havíamos começado nos primórdios, no entanto, aqui sucede o primórdio duma noite —, em um quarto decorado, posto fosse ativado o preconceito da percepção, a moldes góticos, em que, neste, apenas um estropiado abajur é único em alumiar o vasto negrume, metera-se o homem a orar, a clamar, coisas, ao passo que ligadas pelo valor único, as que fez por indefinido tempo, não me ouso arriscar uns algarismos, portanto supõe-se acentuada decorrência temporal —, a proferir sucedeu... adjunto de umas eternas alegrias: “Perdoai-me, ó Senhor; agora entendo perfeitamente. [...] Vós mostrastes-me a verdade diversas vezes, e, por teimosia minha, puxáreis-me o tapete outras incontáveis; fui incorreto, não bastando, demasiadamente infeliz ao Verbo: fui evidente pecador; e, vós, mesmo a mostrar-me o caminho correto, ainda assim, caminhei pelos errôneos incertos: levaram-me à ruína — de a parva amargura à desgraça profunda —; mas, vós, vós salvastes-me per meio de vossa providência divina. [...] Abstenho-me de retrucá-lo, de objetar...; apenas aceito — qual dócil tão somente —, daqui por diante, o que vós tendes à minha vida.”, decretou o homem que, dantes, entrar-se-ia numas estatísticas, as quais, em pouco tempo, ser-se-iam esquecidas; fez-se bem em não se jogar no concreto, o fez, porém, no piso gélido, sobre os anciões joelhos, descalços e carcomidos, ante a cama de branquitude crescente. E nada mais fez ao chegar em casa: tantos afazeres corriqueiros para se começar, tantos deveres de subsistência para se terminar, em suma, muitíssimos deveras; demais, sequer meteu-se a cozinhar, ação basilar após um dia corrido, coisa que, sem dúvidas, tivera, tampouco, ato último geralmente senão não menos importante, a relaxar: assistir, dormir — nada mais fez a não ser permanecer em seu quarto e, assim como um bacharel, por lá ficar, junto de uma força atenciosa, sem nada de útil exercer, igual fielmente a um bacharel. Qual uma costureira que, por ofício, costura, meteu-se o homem a tecer algumas letras: algo, pelo menos..., já não-bacharel, ao menos —, útil, no entanto? Não; de modo algum — quase invisível sucedeu aos mais lhe amáveis, tampouco, ergo, adveio a composto por utilidade. Em verdade, digo que se cansara, a posteriori, de seus efeitos, digo, não obstante, fê-lo de intermitente maneira; ou seja, pelo escuro — por conta deste; ora, pela escuridão ante a luz, adormecera com um dos olhos semicerrados: encontrava-se exausto —, descansara um bocado, em sentido quantitativo baixo, afinal, o fizera de modo intercalável à produtividade tensionada: ora apertada, ora mansa, como as cordas de uma lira, feitora de as mais belas melodias... E cá se deu a harmonia como Heráclito postula, bem como, em função, a quantidade qualitativa do sono. No tardio amanhecer que a ele justamente deu-se às onze em ponto, posto fosse a abstração enérgica —, próximo do comecinho vespertino, despertara e, pela conhecida primeira vez, não sentiu remorso, muito menos a adulta angustia, e tristura lhe intermitentes, ao sono e descanso — a, bem como, útil perspectiva existencial —, ao contraio, sentiu-se bem, diletante, feliz e calmo... Noutro dia, de mais organizada maneira, meteu-se a tecer outras letras, até uma prosa perfeita.

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