Continuando a saga: em busca da ocupação, mesmo não sendo tão bom ocupá-la, segundo aquela filosofia particular de Dom Ramon da que já pareço me adaptar, “não que haja trabalho mau, o mau é ter que trabalhar”; saga esta que já pareço também a meter nome, por ora não confesso quê. Depois daqueles primeiros exames, não tive muito tempo sem que me chamasse à empresa novamente, a própria empresa. Antes de ser empregado por essa, e ter a minha carteira assinada além da conta-salário pelo banco parceiro, no dia primeiro deste mês de agosto me quis ver sua médica ocupacional. E como não fosse algo planejadamente individual ou pessoal entre mim e ela, esta mandou chamar a outros dois colegas, com quem tive o prazer em dividir a chance quando de todo quiçá em torno de dez éramos. Sete não passaram de antemão, ainda outro desistiu, de supetão, quase nas últimas.
— Que livro é este? — perguntara-me quanto ao livro que lia naquela ocasião de detestável fila, enquanto esperávamos nós quatro, ele, eu e mais outros dois, em nossa primeira vez ao ambulatório, ainda no comecinho de nossa admissão, dias após a entrevista de emprego da que não me lembra havê-la mencionado ou nem. — É melhor. Eu também prefiro ler do que celulares.
— Memorial de Aires — ao que respondi-lho, mostrando-lhe a capa. — Machado de Assis.
— Top.
Um dos outros dois colegas rira, como se o gesto desse servisse a desmentir o dito daquele.
Depois não nos vimos mais, nem os outros dois que ficaram a ele; subitamente, desapareceu e foi, quem sabe, tentar algo melhor para si, igual quando parei de entregar bebidas e alimentos a escrever novela. Não é preciso dizer que, nessa sábia decisão e se somente se nesta excluído outros fatores deste mesmo ambiente controlado, ficara mais pobre, embora com laudas e mais laudas sobejamente preenchidas do que talvez eu jamais publique. Mas o que publico efetivamente é pouco desse passado e não tanto daquele, muito menos outros de mais antanhos; esse dia primeiro de agosto: ou o primeiro contato com a médica da empresa e meu primeiro e último exame com esta.
— Luiz... — exclamava de seu consultório, ao que tão logo ouvido entrei. — Luiz Carvalho!
Pés lá dentro, pude a ver de relance; prontamente volvi, a fechar a porta; pela segunda volvi, e a pude ver pelos próximos cinco minutos de nossas relações previamente concertadas entre paciente e clínico.
— Diga... Agora é a hora de reclamar, depois não pode mais — gracejava.
— Não... não tenho nada.
Não obstante o sorriso simpático, não me deixava ir além da objetividade séria. Que eu saiba ainda agora: não tenho nada a não ser o princípio de loucura com que escrevo isto sabendo que, possivelmente, ninguém lerá. Mas isso terá ficado ao psicólogo doutor Ray da Cedil Ocupacional. Agora, cabelos flavos e olhos claros; tinha certa idade que não sei qual. Era de dissimuladora jovialidade a quem a visse; embora saiba que não esteja longe dos quarenta e tantos, aparentava menos. Quando muito, trinta e poucos; corada as maçãs do rosto, tinha os róseos lábios risonhos. Não era magra e nem de pouca carne; era baixa e tinha os quadris pouco espaçados. Sobre as espáduas acanhadas, usava um jaleco branco; as manguinhas espraiavam a lhe cobrir os braços aos que, outrossim, qualquer um mais moreninho suporia, tanto pelo rosto esbelto quanto pelas mãos finas e pequeninas, ou pela falta do composto vitamínico, ou radiação solar pela mesma vitamina amiga de ambos os fatos heterogêneos.
— Gire os dois pulsos para a esquerda — pediu-me e pedira-me bem; tinha eu lhe obedecido servilmente como se estivesse para receber promoção mesmo sem primeiro haver começado de peão: antes ao lado dela como auxiliar de mesa do que bem acompanhado das barulhentas sendas por entre contêineres à refrigeração. — Pronto. Agora eleve as mãos e encoste as palmas lá em cima.
— E agora?
— Sem dobrar os joelhos, toque nos pés com no mínimo a ponta de um dos dedos.
— E agora?
Estava atestadamente alongado. Não é preciso dizer que não reprovei em dificílimos testes. Como diria um amigo e treinador do período de experiência sobre os quais futuramente discorrerei, “o que é difícil é ser o melhor”. Ao menos nisso não errei.
Terminadas as articulações sem palavras e com, porém, cartilagem e líquido sinovial, e acabado também quanto às suas razões ocupacionais que não me cabem ou interessa saber quais —, sobrou-me as perguntas de hábitos e bem-estar, que destarte não cabem ou interessam mais do que as outras de espécime vizinha. A maior parte delas: “não”; dito rijo, convicto ao estilo oficial, sem exasperar-se ou exclamar. Porém, uma delas é por que chama a crônica ao cronista, por excepcionalmente engraçada a seu modo.
— Fuma?
— Sim.
— Quantos por dia?
— Um.
Ela admirara por alguns segundos, perdida. O que eram olhos médios e experientes excetuada a aprazível condição de azulados escusados pela métrica abstrata, tornaram-se meio impressionados e residentes pela abertura súbita mais do que o habitual até então, e quase que se esvaia a cor conhecida deles, excetuada a métrica abstrata em favor da concreta e seus acidentes, deixados a escurecer sem perder o brilho do espanto por causa que se fora para trás levemente, saindo do raio de ação da lâmpada. A cadeira a acompanhou.
— Um maço por dia? — ao que redarguiu-mo.
— Um por dia… — tornei; fazendo-lhe assim com o índice. — Um.
Ela enfim entendeu. Pegava da caneta, olhava por cima dos óculos a mim conciliando na mesma ação, por agora entre a lente, com o papel —, usava óculos —, e, enquanto curava a análise, curvava a extremidade dos lábios, como que instintivamente por dizer-me: “esse tem o vício moderado”; a linguagem “O.M.S.” a reteve a tempo, e o baixo tempo com que permanecera assim com a boca também. Quando muito me soltara um “nossa!”, ainda que exclamando pouco. Auscultou-me em último os batimentos.
— Vai aí cento e cinco anos... fácil.
Bacana...
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