Esse negócio de Peaky Blinders ficou bastante falado de uns tempos para cá. Tirando aquele sósia que em cujos vídeos editados passa ao som grave por entre as pessoas, e estas ficam admiradas ou vezes mais rachando o bico —, quanto a mim toda a matéria para o cotejo quando me veem os outros minimamente bem-vestido suponho seja a boina de oito gomos e o casaco, pouco menos comprido do que um fraque do século XIX. Pior; de todo poliéster e aveludado. Mas, para ser exato, por “bem-vestido” digo ‘calça de alfaiataria poliéster não-aveludada, camisa de mesma fazenda e tipo, sapatos de couro sintético, “sobretudo” e gravata’; ao menos a boina é de tweed. Eis como me visto nesse inverno litorâneo. Quando muito quente, no lugar do casaco apenas um blazer para que não me sinta tão “pelado”; claro que, não-aveludado, de todo poliéster também quando deveria ser de fibra natural, quando muito de viscose.
— Sabe quem você parece? — perguntava-me um atendente bancário com quem tive o encargo destinatário de abrir minha primeira conta-salário, depois das primeiras palavras miúdas de hospitalidade entre um consumidor e um prestador de serviços representado. — Thomas Shelby!
— Faltou só a boina.
Faltara-ma naquele dia por havê-la deixado em casa antanho, quando ao banco entrei. Quanto a Santander propriamente, não gostei; se eu não tivesse smartphone, é possível que não estivesse hoje na nobre obrigação de auxiliar na manutenção de “grandes geladeiras”, como mo pintara uma vez o patrão. O rapaz aliás não estava mal: blazer, suéter e camisa social; ao que pude notar, faltava-lhe gravata apenas.
Claro; apesar da qualidade indubitavelmente nobiliárquica e social a de meu traje, quase que único se não fosse o blazer a dinamizá-lo um pouco —, tudo comprado na Shein Brasil por exorbitantes mais ou menos cinquenta reais, cada elemento do conjunto ou, se aborrecer o estilo extensivo em favor do enxuto, cada peça. Mas que não passaram de cem cada. Podia até ser mais em conta, porém se o Ministro resolvesse não tributar as “minhas comprinhas”, e pudesse exercer meu ofício de muambeiro digital sem demais problemas, o amor certamente não venceria, e eu decerto compraria menos roupas soturnas de um parnanguara anglo-saxão e naturalmente mais vibrantes e leves dum refugiado cubano chefão do narcotráfico, por aumento da oferta. Já que falamos de fotografias postas em movimento, antes a punho e hoje digitalmente.
Agora, algo inédito: filosofia de boteco em crônica. A diferença substancial e precisa entre o personagem “móbico” de Steven Knight e eu, apesar daquele ser a inspiração e efeito de uma versão sua infinitamente inferior e piorzinha na linguagem based e em era dos edits (já que não há nenhum a respeito do original), é que a minha pessoa, primeiro, é real, o Tommy tão somente possibilidade da Netflix, sem entrar no mérito se boa ou má em termos miméticos e de verossimilhança; segundo, além de ser eu real também sou possível justamente por sê-lo, real. E a completar a unidade através da trindade que se me apresenta qual única desvantagem em não ser o personagem ficcional, é que meus suits não saem “por conta da casa”.
— Boa sorte lá...
— Até mais.
Atalhei apertando-lhe a mão e depois saí, deixando-o lá a ver mentalmente e ensimesmar consigo: “Thomas Shelby”; com a vista interior olhando largo para além do novo cliente que agora atendia. Estava apressado; também absorto e não outrossim, ajustara comigo mesmo de ir no Book Sebo, ver se encontrava algo que prestasse, e acabei na Catedral pedindo perdão dos meus pecados ante o sacrário. Ao cabo, encontrei o que prestava eternamente. Persignação, genuflexão e sinal da cruz, entrei a ir embora depois, sem boina na cabeça mas às mãos a conta-pagamento em contrato assinado, e com efeito foi o que bastou tanto à empresa quando lhe enviei foto quanto à mamãe quando lha mostrei.
— Assim que se faz — congratulava-ma abrindo o sorriso enquanto espraiava-mo de todo, segurando-me as mãos; apertou os olhinhos, coalhou os pés de galinha. O abraço foi terno e materno.
— Agora estou pronto para receber.
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