O
Sr. Paulo Honório, homem sem sobrenome, não registrado pelos seus pais por
motivos que, segundo ele, deviam ter para “não serem conhecidos” —, de idade
aproximada a partir do seu assentamento de batismo no dia de São Pedro —, vive
uma vida totalmente centrada em sua fazenda, São Bernardo, depositando-lhe todos
os seus esforços, fé, esperança e ciúmes. Mais tarde acharia alguém com quem
dividir em dois esta sua obsessão; dona Madalena, sua esposa. Mesmo quando teve
seu primogênito dela, era um filho para São Bernardo e não um São Bernardo para
um filho. Com a morte dela, tudo desanda; Paulo fica viúvo, tanto de Madalena,
quanto da fazenda, que começa a ruir aos pedaços, vítima das mudanças
socioeconômicas por que passava o Brasil e sobretudo toda a região nordeste.
O
S. Paulo Honório, embora avesso ao comunismo e a sua propaganda, pelo seu
caráter mesquinho e usurário contrário ao humanitarismo rubro, era o mais
materialista de todos da trama. O Sr. Padilha, de quem Paulo Honório, através
de um malparado empréstimo contraído por Padilha, consegue subtrair como
colateral toda a fazenda de São Bernardo, anteriormente do falecido Salustiano
e pai do Padilha —, embora o maior dos simpatizantes às claras com as ideias
marxistas de toda a obra, não demonstrara em nada parecer se importar como se
importava Paulo com a concentração do poder, expectação do lucro e acumulo de
riquezas. Muito menos a esposa de Paulo, que tem, independentemente dos seus
prováveis ideais revolucionários aludidos pelo marido, incutidos ou não por
Padilha, valores e ações morais de sua parte louváveis, dignos de apresso e
nota.
A
ideologia passa ao largo da sua prática histórica documentada.
Seu
Paulo Honório não era comunista, mas fortemente materialista, inclusive fortemente
contrário à educação aparentemente para somente fins contemplativos do que com
exceção se fossem imediatamente de ordem empírica e práticos. Padilha, nem sujo
nem lavado, totalmente desconhecido de quaisquer atos reais de caridade que
houvesse supostamente perpetrado, apenas um pobre-coitado que caiu no conto do
vigário, escatológico e revolucionário de Marx, sem ver que, para além de uma
vida humana esperada, o sucesso histórico do comunismo viria a ser a desgraça assim
igualmente distribuída; abundantemente pior do que os maus tratos empregatícios,
particularmente instaurados e propagados por seu patrão, dentro do delimites de
São Bernardo. Já Madalena, alçada a uma posição social superior a que estava e
esperando que isso acontecesse após casar-se com Paulo, tinha sinceramente, ao
que parecia, um coração bondoso e gentil, anárquico a quaisquer modelos de
comportamento previamente pensados e erigidos como o mais alto da moralidade,
senão confluentes para aquilo que já vai inscrito há tempos no coração de cada
homem e mulher existentes; ao menos de todo, ou abertamente, não botava suas esperanças
que, num átimo, algo planejado e planificado por meia dúzia de homens
supostamente bem-entendidos, pudesse ajudar as pessoas igualitariamente.
Madalena prontificava-se em pessoa a fazer o que podia, como na vez em que, por
exemplo, tomou a iniciativa de mandar remédios às crianças que padeciam de
verminose, lá por perto, recônditas e anônimas, metidas nuns casebres úmidos e
escuros; ou na vez derradeira, através de uma carta que se subentenderia mais
tarde como seu testamento, mandou entregar o acumulado de seus ordenados às
pessoas que, por aquelas bandas, mais precisavam do dinheiro.
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