Forma de Pagamento

Batiam 19 horas em ponto quando me pareceu mais um cliente, até então mais um do mesmo, do qual não se sabe muita coisa salvo aquela única e singular relação formal que nos podia aproximar o mínimo. Cliente e atendente: um quer comprar e o outro ajudar a vender.

— Boa noite, senhor. Clube?

— Sim! respondeu-me.

Tinha acabado de retornar do intervalo, que gozo em chamá-lo vez em quando ‘recreio’ às colegas a ver-lhes o riso espontâneo ou fingimento; ainda estava cansado e terrivelmente com sono, a um passo de errar e cometer algum engano durante o trabalho como operador de caixa, que exige atenção plena. Meus olhos teimavam em ficar semicerrados e avermelhados, irritados de tanto lhes passar o dedo. Tomara apenas um café diluído em leite gordo ou magro, fumei uns três cigarros, e, caixeiro, chegado a hora de bater o ponto, vim atender os clientes conforme o restante que ainda havia de expediente.

Bips aqui, bips ali:

— Forma de pagamento?

— Vale, disse o cliente.

No balcão jogava o cartão voucher, que escorregou para onde ficaram estivadas as suas compras, devidamente ensacoladas e condicionadas como sacaria num porão de navio.

Apertei alguns botões, programei a maquininha para aceitar vales-alimentação ou refeição, e, embora isso demorasse só alguns segundos, só voltei a perguntar novamente a forma de pagamento quando o cliente demorou mais alguns segundos do que o normal, somando-se aos meus, como se estivesse esquecido de que há pouco eu lhe havia passado as compras e chegava a infame hora de enfim pagar por elas.

— Forma de pagamento?

— Vale, tornou o cliente.

Procurava o cartão voucher na carteira desesperadamente. Mas ele mudou de ideia.

— Deixa disso, jovem... Vai ser no Pix. Devo ter deixado o vale no carro.

— Senhor, não é aquele que está ali, apontei-lho.

Ele olhou o cartão debaixo de uma das sacolas, cuja parte à mostra; olhou para mim; e indagou confuso:

— Espere aí, eu já o tinha tirado?

E pensar que seria eu que faria alguma atrapalhação devido ao sono e cansaço.