Translate

Rescisão Trabalhista

Eu ia voltando da firma; acabara de encerrar por ali mesmo o meu mais recente contrato de trabalho com uma das maiores redes varejistas do seguimento de hipermercados da minha região, quiçá do Paraná, como pertencente ao excelentíssimo Corpo de Operadores de Caixa da empresa. Setor: Frente de Caixa.

Rescisão trabalhista. Desta vez, fui mais esperto por assim dizer; não deixei que, depois do prazo de experiência de três meses, se renovasse automaticamente para “prazo indefinido” o contrato de trabalho. Caso contrário, depois teria eu de cumprir aviso-prévio. Não consigo suportar a terrível tarefa que é trabalhar em um lugar duplamente obrigado.

Subi no Recursos Humanos, peguei toda a papelada que me cabia, assinei algumas, e as amarrotei dentro da bolsa junto de outras, antigas, de empresas anteriores, enterradas e esquecidas no fundo de uma pasta executiva; fui-me embora às carreiras, para casa, livre da angustia rotineira de um empregado ratuíno, e com o peso social do desemprego sobre às costas da minha amígdala, hipocampo e córtex pré-frontal, de maneira pujante a cada dia que passasse sem encargo ou função remunerada. Seis reais a hora. Desde já pensava em algumas possibilidades: “talvez seja a hora de tentar de frentista de posto de gasolina”; “servente de obras, quem sabe... Pode-se aprender muito com a construção civil um aspirante à orelha seca, ainda que um desajeitado para o ofício”.

— Ei, senhor! chamou. Poderia me arranjar um cigarro?

Da metade do caminho em diante, ensimesmado, vinha fumando como de costume quando acontece nesta minha vida pacata um grande evento ou algo importante. Ao meu ver, entrar ou sair de uma companhia me parece relevante para apreciar mais uma vez um bom fumo, e o fumo moderado em si tem propriedade antiestresse sem entorpecer.

Cada um cada qual, tem gente que prefere celebrar com ultraprocessados, ou beber até desfalecer.

Cinco metros adiante, e mais três pela minha letargia propositada com que andei mais alguns passos, como que fugindo daquela voz que me chamava, torcendo para que no fim não fosse comigo; estaquei e volvi, compassado, em dois movimentos bem definidos e separados.

— Claro, respondi, sacando do bolso interno do casaco e lhe dando o segundo cigarro do maço.

Tragávamos suave. Ele estava vestido com roupa de trabalho, vulgo EPI, mas incompleto para um uniforme padrão de proteção individual; nem sinal do capacete. Mas com aquelas cores...

— É eletricista? perguntei.

Presumi que trabalhasse na companhia elétrica. Presumi que mexesse junto a colegas em algum poste por ali.

— Qualificação de alimentos, respondeu.

Então ele vinha da zona portuária. Bem longe do meu palpite. Bem longe de onde estávamos, próximo ao centro da cidade.

— Voltando do trabalho? perguntei. Dia corrido, suponho.

— E como... Meu último dia; fui demitido. Mas e você?

— É por aí.

Ambos sorríamos.

Comentários