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Uma Graça

Quatro da tarde, lá estava ela; deslumbrante. O supermercado começando a lotar; corredores enchendo, e carrinhos, outrora perfilados, organizados, começar-se-iam amontoar aos montes. Em horários assim, todos querem ir para suas casas, junto de suas compras, devidamente pagas, sem atrapalhações de quaisquer partes: cliente ou caixa. E Victor não sabendo bem o que fazer: se passava as compras do cliente com a máxima cautela e agilidade lhe habituais, ou se, rápido mas possivelmente estabanado, prestava mais atenção naquela moça do caixa vizinho, da frente, correndo claro risco de errar em suas atribuições, e bater além da conta um mesmo produto, uma, duas ou mais vezes. Sua cabeça que deveria estar em um lugar, definido, prático, encontrava-se distante, em outro planeta, gelatinoso e saliente; ainda que de maneira ingênua, na terra da cobiça.

Todas as linhas do rosto configuravam a mais singela perfeição de beleza; um diamante. Cabelos negros, frios, ao que pareciam estranhamente naturais. A boca: desenhada por lábios róseos, não muito exagerados; hidratados naturalmente sem cosméticos. Maçãs do rosto bem posicionadas, e não muito avantajadas. Olhos grandes, afeminados, levemente com sinas de sono e cansaço, no sentido anatômico; linhas das pálpebras, duplas, sutis e aparentes; a íris negra confluía combinação estética junto à pupila para uma atraente escuridão. Combinava com a cor do cabelo, e contrastava com sua alva epiderme. Nariz grego de tamanho pequeno; reto. Tez límpida, airada. Uma verdadeira branca de neve. Excedia em beleza e competência para o papel bem mais que atriz Rachel Zegler. E quem não? Ombreava com Geena Davis em seu prime, só que sem a altura, os cachos e a cor clara dos cabelos. Uma Sue Lyon morena, sem o nariz de mocinha e mais encorpada.

Victor, um simples operador de caixa, não podia fazer muita coisa senão admirá-la. “Uma pena que não seja comigo que passe as compras”, pensava. Uma graça. Mecanicamente, a cada bip do leitor de código de barras, sem se valer de multiplicar os itens iguais em marca e peso líquido, do contrário, necessitando mais ofício e menos vadiagem, quebrar-lhe-ia a concentração contemplativa; ensacolava segundo a mais fina técnica de um operador de caixa e ao mesmo tempo empacotador, enquanto que da moça não tirava a pestana esguelhada e levemente levantado sobrolho.

— Moço... Ei, moço!

Victor, assustado, não pôde manter a dissimulação oblíqua, a não ser, de pé, endireitar o rosto de supetão, e concentrar os olhos abotoados na senhora que atendia naquele momento inoportuno e vergonhoso.

— Pois não?

— Minha compra acabara há três produtos, menino.

— Perdão, minha senhora — ao que respondera Victor.

Por sorte que a fiscal estava próxima. Item por item foi retirado da nota, vez por vez, porque o sistema era antigo, e a maneira com que, revezando os cartões/crachás, ora do operador, ora da fiscal, se removia os produtos, com o limite para três por nota, seguia a mesma letargia burocrática do Estado brasileiro. Batera na tampa. Se por infelicidade errasse com quatro ou mais produtos do próximo cliente com este cliente que faltava acertar as contas, estaria em maus lençóis; teria de passar, tudo de novo, as compras do atual cliente, desde o começo, isso, é claro, se o cliente não resolvesse milagrosamente levar o objeto passado a mais, indo até a gôndola buscá-lo, ou chamando a atenção à bondade daqueles valorosos empacotadores que pelo mercado rondam à procura de carrinhos ou devolução, quando não estivam entregas dentro de um caixote.

No fim do processo, que requeria atenção máxima, itens certos, corretamente cadastrados, pagamento realizado, e crédito, parcelado em seis vezes; a moça bonita do lado de lá já havia terminado com suas compras. Passara rente ao caixa de Victor, ao seu lado esquerdo, acompanhada, indo embora, com dois carrinhos cheios.

Victor, a bem de sua alma, não era ciumento, nem antes invejoso. Tinha claro desejos, mas logo aferrados, advertidos pela sua consciência sensata, enquanto que a vontade se deixada impulsionar por esta inteligência; de modo que não se lhe tornavam da concupiscência uma grave desordem. Congratulou o rapaz por pensamento, e a sua boa sorte com que para si conquistara tamanha felicidade. Moça bonita e rapaz arrumado, pareciam felizes e sorriam muito, um para o outro; ambos sem alianças. Victor rezou pelo casal e desejou-lhes o sagrado matrimônio se fosse da Vontade.

Idealmente, até às dez da noite, continuaria a passar as compras dos clientes; até às onze, Victor ou limparia os caixas, ou devolveria os produtos deixados por ali às suas respectivas prateleiras. Uma graça. Se ainda houvesse a oportunidade, prepararia em sacolões transparentes e simples, os produtos avariados, para que no dia seguinte fizessem parte de um lixo maior aquele monturo, facilmente reaproveitável.

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