Na história recente deste país julgo ainda que o pressentindo levianamente, dada minha ignorância da totalidade do assunto como um humilde cronista: é a primeira vez que um juiz se aposenta de sua cadeira do Supremo Tribunal Federal, deixando-a por meio de um último voto um último e ilustre “barroso”; como dissera da anedota Pe. Lodi, do qual parafraseio a mesma observação, “um voto bem barroso”, e que como ajuda o manchará como juiz até onde vá a memória curta do brasileiro, hoje majoritariamente contra o aborto.
Com efeito, o satírico causo de que, durante os atos de vandalismo acontecidos no 8 de janeiro de 2023, acabaram por resultar parcialmente na defecação a um dos vândalos — manifestantes da indignação coletiva e espontânea —, em uma das salas do Supremo, transformara-se no dia 17 de outubro, ainda que metonimicamente, em mais uma realidade incorporada, penso eu, à maneira que se contará a história política desta republiqueta daqui para frente, acontecimento com que os historiados vindouros virão quebrar a cabeça. Por exemplo, “qual das duas cagadas prejudicara mais a ‘ordem e progresso’ de nosso país?”, indagar-se-iam uns aos outros, pensativos, alisando os pentelhos do queixo; ou, ao menos, perguntar-se-iam, “qual das duas cagadas foi menos indigna de um ser humano?”. Quer dizer, uma delas não tem poder de legislar, de maneira alguma, e respeita as necessidades fisiológicas e a regularidade com que está disposta a microbiota, ainda que um tanto ousada e indecorosa; a outra, curiosamente, legisla — mesmo que judicialmente — podendo ou não mudar o estado de coisas para bem ou para mal, ao colocar em dúvida, por exemplo, o crime de aborto, segundo ele em uma diarreia mental com que defende seu ponto: uma política pública ineficiente ao não reduzir o número de abortos — assassinato de miúdos ainda não nascidos. (Isso aí e entre outros estratagemas retóricos dignos de uma congestão cerebral aos mais honestos intelectualmente). Ora, em outras palavras, é com extrema ânsia com que esperaremos desse voto infame a pretensa legalização do assassinato de nascituros, na medida esperançosa de reduzir a sua incidência clandestina. Além de se legitimar legalmente todos os assassinatos de nascituros que vieram antes, terá sido verdade que com seu efeito a quantidade clandestina do aborto reduzirá, porém em função do aumento exponencial incorporado à sua variante agora industrial e considerada cool, evitando aqui de se utilizar mais uma vez o termo ‘legal’ porque este está naturalmente conservado à justiça, não à perversidade moral de tiranetes e falsos juristas.
Analogia do “cigarro”: hoje é legalizado no Brasil o cigarro; não é porque é legalizado que sua variante clandestina ao largo da Receita Federal, deixa de coexistir com ele, ainda mais quando essa inventa de aumentar a carga tributária sobre o primeiro. Se a venda de cigarros fosse terminantemente criminalizada, aí então é que o clandestino passaria a explodir. Se o aborto é legalizado, ele automaticamente se transforma em um negócio, e como negócio é rentável, igual ao cigarro; e não há quem diga que o cigarro industrial perca para o cigarro clandestino em termos de vendas, do contrário não haveria por que existir a viabilidade do cigarro como industria. O aborto como industria só tende a crescer, sem jamais ter a capacidade real de engolir totalmente a sua clandestinidade, mitigada pela legalização do assassinato de nascituros. Se o aborto fosse apenas ofertado pelo sistema público de saúde, planificar-se-ia o mercado; centralizar o mercado é prato-cheio e o mesmo que dizer para a sua clandestinidade “crescei e multiplicai-vos”. Excetuado o business, o problema moral ainda persiste: é admissível que em condições normais de temperatura e pressão, a mãe mate o seu filho?
Ora, se um dia a tragédia grega se realizara na morte e personificação do filósofo Sócrates, a cagada retroativa de um povo consternado se perfaz figurativamente na pessoa ilustre do ex-ministro, ao deixar sua posição de poder temendo a Magnitsky —, para enfim saber que passará mesmo assim sua pantomima, de uma “noite de um sonho de verão” natalina, longe da Florida, devido a outras sanções. Abortado da Disney e com aval do Mickey, sobra-lhe por ora a sua versão reduzida parisiense.
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